domingo, 13 de julho de 2014

Quando flor

Foi-se o tempo das pétalas
dessa chuva que veio sem dó
agora tu murcha
alguém te quer?
Flor, se o bom tempo voltar
e alguém bem te quiser
desabrocha contra o sol
faz teu tom durar
Vai-ser rosa por si só.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Quando o amor é passado

Sai de casa pensando que ia sem rumo, mas o ponto certo era o bar mesmo, uma cerveja antes de tudo o mais porque não adianta inverter a importância das coisas, tudo começa e acaba na virada de um copo, água, café ou álcool, se cura, ou se mata, o sono, a ressaca ou o tédio. O amor virou a esquina logo na primeira curva, pensei, sem nenhuma surpresa: - ótimo, finalmente saiu. Sem mais amor de facebook. Cansei de amor certo, rima, métrica, quero amar é errado mesmo, fora da linha, amor-carne-sentido, escrever com suor ou sangue, sem mais poesia-bit de grafite, tinta azul ou preta. Papel só se for papelão na chuva à espera dela, a bater na porta sem ver a linha nem o ponto, antes ou depois, nem Caio soube. Dessa vez, toda arte vai ser consequência. A palavra vai ser dita, ou escrita, mas no corpo dela, não mais tela, não mais teclado. Vou trocar o computador pela máquina de escrever e o celular pelo telefone sem fio, porque o amor não é prático, não é só desligar, não basta dar enter. Sai pensando que não tinha rumo, voltei tendo a certeza: o caminho se faz também num passo recuado.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Terceiro brinde

Chegando em casa às sete da manhã, Marco ainda não tinha certeza se precisaria trabalhar de novo à noite. Assim eram quase sempre seus dias, ou noites: um relógio sem tempo, medido pelo toque do celular que aqui e acolá Zezé ligava e anunciava outra noitada de trabalho. Por vezes, nem voltava para casa, ia direto do balcão do bar para a casa de alguém que conhecia nas festas, a estender uma farra já desgastada. Quando sozinho em casa, mal se mantinha acordado, era cama, banho e rua. Numa noite dessas, conheceu Jéssica, que por muita insistência das amigas havia ido àquela festa. Quase nem dançou, passou a maior parte do tempo se lamentando no bar e contando os minutos para voltar para casa, onde ainda tinha uma pilha de trabalhos da faculdade para terminar, o trabalho, as contas por pagar, as contas, as contas, os juros, nunca os juramentos. Os sons, a fumaça, os bêbados, todos, tudo empurrando para fora um corpo que não estava mais ali, mas sugando a mente de quem permanecia estático, à espera de alguma coisa, da hora certa ou errada, tinha algo a esperar. Longe e perto, sendo tocada e rejeitada, se mantinha no mesmo lugar, aflita, calma, uma confusão prevendo uma contradição. Abraçava as amigas, a queixarem-se dos namorados, mas não conseguia lhe deixar tocar o rosto uma lágrima, e era a maior angústia da noite – a vontade de chorar nos ombros de quem repulsava cada vez mais. Mas era quase como se elas chorassem por ela, como se sua dor ressoasse por todo o ambiente e a livrasse daquele fardo ao mesmo tempo em que aumentasse. Era um balão cheio de tanto ar. Não fazia o menor sentido estar ali, sóbria, embora fizesse todo o sentido do mundo.

Há tempos, Marcos não conversava tanto com alguém, nem com seus amigos que vez ou outra conseguiam encontrá-lo no barzinho em suas folgas. Jéssica lhe perguntava as coisas como se realmente tivesse interesse em suas respostas, talvez tivesse, pois talvez Marco fosse a única pessoa que de fato pudesse entendê-la justamente por não ter a intenção disso. Antes de partir, porém, não pediu nenhum contato, simplesmente se foi quando Marco virou as costas para atender outro cliente. Seria difícil encontrá-la de novo, ele sabia. Seu trabalho não se limitava a nenhum lugar nem estilo de festa e também mal se preocupou em conhecer melhor a garota que serviu-se apenas de água. Costumava não ter relacionamentos, apenas casinhos pós-balada, quase nenhum em sua casa. E, por isso, não era muito de conversar sobre si nem sobre ninguém, apenas conversas fiadas o bastante para que se cumprisse o destino de duas pessoas que se conhecem numa noite que nada promete, mas tudo cumpre. Mesmo assim, todas as noites ele esperava que ela voltasse: pela manhã, ao acordar, olhava para o lado, num desejo nada compreendido, esperando que ela estivesse ali deitada, num sonho só dela; pelas ruas, esperava encontrá-la numa esquina qualquer; pela vida, esperava que, bem lá no fundo, essa espera ainda fosse real. – Bárbara? Recebi a mensagem, sim, acabei de chegar. Ainda não sei se posso ir à noite. Depois dessa virada, nem vida eu tenho pra falar ao telefone! Mas retorno mais tarde, ou apareço. Mal desligou o telefone e caiu na cama. Era Bárbara a mais próxima dele e que mais conseguia entrar em contato. Da última vez, aos prantos, Marco deixou escapar que se sentia sozinho, não por estar solteiro ou sem ninguém dividindo a casa. Sentia-se sozinho simplesmente por não conseguir como falar que assim se sentia. – A solidão é o eco de um latido bem distante. Bárbara, meio confusa, não entendeu o motivo do amigo não procurá-la com mais frequência, assim como não entendeu muito as palavras meio embaralhadas dele. O fato era que ele não costumava conversar com ninguém, mas ouvir a todos, pois achava que seus problemas nunca eram tão graves assim. Na verdade, não eram. Mas os dos outros também não. Um problema se torna de fato problema quando é ignorado, e isso Marco fazia bem. Esse relapso que teve com Bárbara foi apenas efeito do álcool e do tempo que o táxi demorou para deixá-lo em casa, tendo sido breve e facilmente esquecido. No dia seguinte, apenas a ressaca e a sensação de um nó rompido na garganta, que logo foi inundada pela água que bebia desenfreado. Ah, vodka! Ah, o esquecimento!

Seu sono não durou muito tempo, acordando na segunda vez em que o telefone tocou. – Marco? – perguntou uma voz meio tímida. – Peguei seu número com o promoter daquela festa em que nos conhecemos, amiga de uma amiga conhecia, não tinha certeza se ligava ou não, pois talvez nem se lembre de mim. – Jéssica! Sim, lembrei-me bem no momento em que atendi, já que fui bastante questionado naquela noite. Respondeu, tentando conter a dose de euforia com desfalecimento. – Não sabia bem o que conversar com um bartender, normalmente conheço pessoas num lugar mais quieto, acho que só fiz perguntas, não é? Nunca tinha conhecido alguém como você. Também não me sentia muito à vontade naquela noite. Um certo silêncio veio após essa afirmação, ambos não sabiam o que falar. Ele por nunca falar muito, evitando aproximações, pois, ultimamente, tudo acabava ao amanhecer e reencontros não eram bem prováveis. Ela por não saber lidar muito bem com reações silenciosas, tomada sempre pela insegurança que a vida lhe deu com o tempo. – Acho que não liguei numa boa hora. – Mas fui eu que liguei, Marco. – Bem... preciso ir. – Preciso desligar. Disseram quase ao mesmo tempo. Ela, achando que bem o conhecia, o rapaz detrás do balcão que preparava drinques e lidava com meio mundo de mulheres mais interessantes e bonitas, não recordou das últimas palavras dele naquela festa, antes de ir embora sem se despedir de uma conversa onde só ela parecia mostrar interesse; sua única pergunta a qual pairou pelo ar e logo se dissolveu entre a fumaça da boate: – Seu número?

Ao desligar o telefone, não conseguindo voltar a dormir, Marco mirou o espelho por um tempo como quem procura o outro lado do reflexo, e relembrou-se do fardo e das certezas que agora carregava: autossabotagem foi tudo o que lhe sobrou. Dormia o dia inteiro, mas mesmo assim continuava na cama, insone, rejeitando convites, desligando telefonemas e apagando as luzes, esperando pela próxima festa. Um dia, quando quis o que não era a solidão, descobriu o superficial, deram-lhe a felicidade e o amor de bandeja, e isso fazia dele o que não era ele. Sua sorte era o seu maior azar. Rejeitava, então, essa sorte, rejeitando a ele mesmo, e toda felicidade que lhe vinha parecia artificial. Para ele, somente a tristeza era um sentimento puro. A tristeza e o amor rejeitado. O que vem depois disso são fugas de quem acredita no sentido das coisas. Somente o não sentir é que era real, cheio de tudo. Falava sobre isso, fazia aquilo, o tempo todo lhe apontavam contradições como se descobrissem algo de extraordinário, mas assumia a si mesmo como ordinário, assumia até o que não era para poupar aproximações. Assumia canalhices, provocava marcas de batom, negava o que fosse decente. Não queria sutilezas. Mas ainda esperava que o telefone tocasse de novo, ainda naquela noite, e revelasse tudo aquilo que era mentira por medo de ser verdade. Ainda, no fundo, tinha esperança de que aquela desconhecida aparecesse e o reconhecesse, descobrindo o que tanto escondia do mundo: a loucura de ser sensível.

sábado, 5 de julho de 2014

Dieta

O telefone chegou a tocar mais de três vezes e ela nem sequer deu importância, celular desligado, caixa postal desativada já fazia algum tempo. Na cozinha, começava a preparar o jantar, sem visita certa, mas talvez alguém da família chegasse de surpresa, daquela vez teria um prato apresentável pra disfarçar a bagunça na casa e no cabelo. Especialidade: saladas e molhos, tudo muito sutil e leve, agora sem pimenta nem muito sal, tudo muito contrastante a todo o resto. Sem mais alta pressão. Norah tocava tímida, num ruído quase imperceptível, "... how does it feel?". Colheu algumas coisas, hortelã, gengibre, abacaxi, gelo, água. Sem açúcar. Não ouviu quando o telefone chamou pela segunda e última vez.

Do outro lado da cidade, a fixar o orelhão, sentou-se na calçada. Talvez ligasse de novo daqui a alguns instantes, talvez voltasse pra casa, talvez voltasse à praia, talvez voltasse, talvez de novo. Pensou um pouco antes de ir embora, mas pensou ralo e simplesmente saiu caminhando pelas ruas, deixando os ônibus passarem, quem sabe o próximo, enquanto isso, andava. O bar que dobrava logo aquela esquina convidava só pra uma cerveja, e ali também tinha um orelhão, ligou prum amigo de copo, - Desabemos essa noite, ela não me atendeu pela primeira vez, acredita? - Só fazia um ano, não entendia como dessa vez aconteceu. Mas dessa vez, como em todas as outras, precisava vê-la: só pra ter certeza de que não precisava. Dentre hiatos bem maiores, sempre atendia, ou retornava logo em seguida. Olhava o celular, nada, nenhuma chamada. - Batata frita, bolinha e espetinho. E traz a saideira, dessa vez é a última.

Adicionou algumas ervas pra substituir o sal, a fruta já bem amadurecida adoçou o jantar daquela noite como nunca antes, mesa pra um, nunca pensou que conseguiria morar tão bem sozinha outra vez.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Entre nós

Um emaranhado de pensamentos rodeava a cabeça de Lídia como se buscasse fazê-la sentir aquela perda repentina. Enroscava-se cada vez mais e menos fazia sentido. A desculpa - Isso fica entre nós, disse ele. Mas acabou que ficou somente com ela o desespero e a dormência entrelaçados por perder alguém tão cedo, antes mesmo do sol nascer. Que esperasse pelo menos a luz do dia, pensou, mas não deu tempo. Não deu tempo de escrever, de ligar, de bater em sua porta, tinha que ser naquele agora e só. O nó da corda tão perfeito como o de quem sai bem cedo pra pescar e que em alto mar enrosca rede, isca e anzol, e espera. Não pode esperar mais nem um minuto. O nó foi um só. O nós também. Desatou antes que fizesse sentido, mas nunca mais voltou aquilo que o prendia a ela.

[em processo de amarração]

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Laço ou nó

O apego ao passado talvez não seja pelo fato de ter sido algo assim tão maravilhoso, mas simplesmente por não haver nenhum futuro, além do imediato que se rasteja a cada segundo no presente. A gente precisa ter um tempo pra conjugar: o problema é querer quase sempre o mais-que-perfeito. Como num presente, teoricamente pensado, adquirido e repassado pleno de afetos, boas intenções ou acordos de paz. Há o laço, o papel e o objeto-trato-troca. Há quem preze pelos três ou por um só, há quem guarde tudo ou jogue tudo fora no minuto seguinte. Há o que enfeita, ou prende, o que protege, ou cobre, e o que contenta, ou se contenta. O fato é que pra rasgar o papel, antes tem que desfazer o nó, talvez até se passe pelo papel sem rasgá-lo, mas o laço vai ser desfeito. Quando refeito, o papel vai ser outro, o presente também, ou nem haja mais nada, só a fita que ainda possa ser laço. Ou o laço que possa ser nó e nunca mais desatado. Corta-se.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Satisfeita apatia

Antes de tudo, obrigada por nada. Pelo brinde que você não ofereceu, pela bebida que você não compartilhou e pelo convite que você não fez. Essa ressaca que me toma vem de não sei onde, só sei que acordei assim, sem nenhuma dose sequer. Lembro-me de ter desabado e desabafado ontem, mas já não me lembro de metade das palavras que soltei, em vão, no teu ar. O desabafo se anula. O peso dobra. Quando pensei ter, finalmente, encontrado uma pergunta pra minha resposta, dei de cara com a fome de tudo o que se completa. E não há nada doce que ludibrie e disfarce essa sensação contínua que meu vazio estômago insiste em rebater. Agora fico sem respostas e sem perguntas, só com um papel preenchido a ser dado como resolvido e arquivado nos fundos de uma sala mofada. Estou gorda, não me sustento, e qualquer vento que dá me desequilibra: ando perto das paredes, olhando pro chão. Tudo dói, menos o corpo.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Três latinhas de cerveja e só

Todos já dormiam, mãe, vó, vô, tia, irmão, menos Elisa. A TV ligada à toa, passava um filme qualquer, que sequer chamava sua atenção nos momentos de tensão, o celular na mão, esquecido, só percebera que estava ali quando um toque quase imperceptível, pois assim mantinha seus ruídos ultimamente, anunciou uma mensagem. Quem seria em plena madrugada de quinta-feira, pensou, fazia tempo que ninguém a procurava nessas horas, pelo menos não no meio da semana, deve ser propaganda de operadora, demorou a checar. Aliás, ignorou aquele toque pelo tempo de lembrar que ela costumava procurá-la nas horas mais inusitadas, quando não bêbada, aflita. Quando mantinha o celular sempre por perto, o sono leve, o toque não. Recordado isso, vagarosamente apertou o celular entre as mãos, talvez desejando que não fosse, mas acreditando que era, e leu a mensagem. Era. Antes de reler e absorver o que dizia, atentou para a TV, um acidente de avião.

- Tenho três latinhas de cerveja. Posso ir ai?

Não lembrava a última vez que havia negado um pedido dela. Não se lembrava de já ter negado.

- Não.

Nem hesitou antes de responder. Nem pensou.

- Chego já.
- Não venha. Está tarde e todos já estão dormindo.
- Dez minutos.
- Não.

E o celular não deu mais sinal de insistência. Inquieta e sem saber o que viria a seguir, voltou a olhar para a TV. Agora havia uma terapia em grupo, o silêncio tomava todos os espaços em goles lentos e doloridos, todos pareciam cinzas pairando no ar. O telefone tocou, uma vez, meia vez. Era ela. Elisa parecia ter saído de um transe quando se levantou do sofá de uma vez e, automaticamente, foi em direção à porta da frente. Mas que diabos, cadê a chave? Ao voltar à sala para pegá-las, xingava Deus e o mundo, calada. Não acredito. Não acredito! E na ponta dos pés caminhou pela casa. Abriu a porta.
- Não acredito.

Suspirou como sob o efeito instantâneo de dez calmantes.

- Entra. Cuidado pra não se bater em nada. A porta do quarto já está aberta.

E ela entrou sorrateira como um rato, como sempre, naquela madrugada. Quase às três. Sentaram-se as duas na cama, uma em cada ponta, abrindo uma das latinhas. Elisa não sabia o que falar nem como fazer, já que tinha dito "não", não esperava que depois de tanto tempo dessa vez ela também não a escutaria. Lembrou-se de quando a convidava, antes da meia-noite, bem no fim da tarde, e quando não aparecia, insistia que poderia aparecer ainda. Antes da meia-noite. Poucas vezes apareceu. Menos ainda avisava que não apareceria ou se atrasaria. Agora que Elisa não esperava mais, resolveu do nada vir com essas três e um papo de como andava a vida.

- Onde você estava numa hora dessa? Eu disse pra não vir. Pra que veio? Pra que veio dessa vez?

Vinha da casa de uma amiga, que por acaso morava bem perto dela, e não queria voltar para casa com aquelas cervejas, então decidiu pegar o caminho mais longo, totalmente contrário ao seu, para terminar de bebê-las. Apesar de acreditar que dessa vez suportaria por mais tempo, já na segunda latinha a armadura de Elisa trincou e foi posta de lado, deitou-se. Começaram a recordar das vezes que voltavam para casa nessas madrugadas, na ponta dos pés, completamente ébrias. Das vezes que as horas não batiam em nenhum dos juízos e que levavam com elas bem mais do que três latinhas. Conversa ia e vinha, acusações ricocheteavam vez em quando, entre afetos, lembranças, convicções e privações. Elisa não estava totalmente segura de si nem dela. Ainda não entendia por que justo naquela noite, com aquela desculpa esfarrapada, resolvera aparecer. Nada tinha terminado bem. Nada tinha estado bem antes mesmo de terminar. E desde então nada continuava nada bem. Apenas equilibrava-se numa lembrança e noutra, boas e ruins. O que era péssimo, pois lembranças são como bolhas de sabão que ludibriam e se dissipam no ar com o mais leve toque ou sem mais nem menos, deixando somente o desejo de tê-las ou vê-las novamente, mas surgindo cada vez mais frágeis.
- Não ponha minhoca na cabeça, Elisa. Vim porque queria te ver, era só saudade, e tinha essas cervejas, sei que você gosta, e sei que não dorme cedo. E também sei quando não quer dizer não, mas mesmo assim diz. Só isso.
- Você bebeu quantas antes de vir pra cá? Sei que só vem quando bebe ou precisa de alguma coisa, sempre foi assim e sempre vai ser. Te odeio por isso.
- Odeia nada.
- E cadê aquela lá? Devia ter ido pra lá. Idiota.
- Mas vim pra cá.

Elisa não imaginou que ali mesmo ela passaria o resto da noite, ou o início da manhã.

- E vai dormir aqui? Eu mereço.

O tempo estava indeciso, nem dia nem noite. Nem claro, nem escuro. Como na primeira vez em que passaram a noite juntas na casa dela, o colchão no chão, as janelas entreabertas, a porta trancada e um copo d´água ao pé da cama. E como naquela noite, veio um beijo. O mesmo beijo que revirou a vida de Elisa daquela noite em diante, nunca soube se dali sua vida estava ao contrário ou do lado certo, ou de cabeça pra baixo, ou virada pra lua. Se acordara ou adormecera. À meia luz, entre farpas e carícias, um beijo, que se mostrou mais claro que o dia, mas que dessa vez não chegou a clarear nada. Elisa disse não pela segunda vez. Nem hesitou, nem pensou.
 
Não-ponha-minhoca-na-cabeça, mentalizou, com vontade de afogá-la com a terceira cerveja. Te odeio por isso. E a tomou sozinha.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Sobre a mesa

Amor é que nem cozinhar: tem quem doe, quem venda, quem compre, quem troque. Quem saiba, quem não saiba nem queira, quem tente, mas nunca acerte. Tem gente que gosta de cozinhar pra desconhecidos, fica lá na sua cozinha despejando tempero pra tudo que é gente, e ainda recebe por isso, dinheiro, obrigados em massa, simpáticos ou tímidos. Vem com nome, fama ou anonimato, mas não tira a mão da massa. Já tem gente que prefere um jantarzinho mais particular, vai às compras e escolhe cada ingrediente com esmero, nada muito maduro ou verde. Alguns cozinham aos montes. Outros, pequenas porções. Uns atentam pro sabor, outros, pra beleza. Há quem consiga os dois. Tem gente que prefere fazer o molho, outros gostam mesmo é de comprar pronto. Molho branco, tomate, madeira, 4 queijos, ervas finas. Tem quem pique tudo direitinho, tem quem jogue tudo logo na panela. Pimenta e sal a gosto. Uns optam por assados, fritos, cozidos, mal passados. Carne tem que ser bem suculenta. Tem o forno, o espeto, o óleo quente. Vegetarianos tratam de inventar de um tudo pra encantar mais e mais gente com outros temperos. Tem quem faça uma mistura de tudo e mais um pouco. Uns pensam no sabor, outros na balança. Tudo faz mal e faz bem, na quantidade ou na validade. Às vezes passa do ponto, às vezes queima, às vezes fica cru. Tem quem prefira plantar o que come, tem quem nunca nem tenha pensado nisso. Amor de cozinha começa na primeira semente que brota no pasto do outro lado do país, semente que cai das mãos suadas ou da boca de um pássaro que voa sem saber ainda pra onde vai.