quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A uma saudade qualquer

Uma saudade que vem de lugar nenhum
Como uma flor que brota no deserto
Chão seco, tempo pálido, miragens
Talvez melhor do que em pastagem
E você procura explicação
Pois tudo no mundo cá precisa que seja de certo
Ora, flor em deserto?
Veja bem, é que também precisa de desprendimento
Já pensou mundo atolado em razão
Livre de sentimento?
Essa saudade, que vem sem nome nem direção
Pode ser tudo que rima com flor.

O preço da dignidade

Quanto vale a dignidade? Por volta de meio-dia, voltando pra casa, vi umas prostitutas na rua, depois um cara sentado próximo ao poste vigiando a mercadoria que vende no semáforo, ouvi o motorista reclamando do salário e do descaso do governo, isso tudo em meio ao cálculo que eu fazia pra ver quanto vou ganhar por hora no novo estágio, quase o mesmo que um professor formado, só que com condições de trabalho bem melhores. Uns ganham mais, outros menos e tudo é trabalho. Uns dispõem de condições melhores, outros, piores. Uns se matam de trabalhar pra sobreviver, outros quase não trabalham e (sobre)vivem muito bem. Outros nem trabalham e esbanjam vida. E tudo é trabalho. Uma vez ouvi falar que o trabalho dignifica o homem... Nesse país acho que usam a dignidade como desculpa pra exploração.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A verdade da chuva

a chuva sussurra
o silêncio já não diz nada
ela vem revestida de ilusão
mas não traz ternura
você evita ouvir
(h)á dor
ela grita
o telhado ecoa
e o frio te cobre.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Só, vento e mar

VOCÊ se DEIXOU LEVAR pelos OUTROS 
e EU ME DEIXEI LEVAR por TI.
JÁ o AMOR, COITADO, FICOU a VER NAVIOS.


domingo, 15 de janeiro de 2012

O mundo é uma mentira

"Num mundo onde só se diz a verdade, não existe a decepção", começava mais ou menos assim a sinopse que li, não lembro o que dizia depois, só lembro que já faz alguns dias que li isso e ainda não esqueci. Tão acostumada a esquecer e não esqueci. Poderia romantizar aqui sobre a memória e o esquecimento, ou sobre a verdade, a mentira, a decepção, mas fugiria do que quero realmente dizer, do que pensei quando li essa frase e o quanto ela foi importante pra fixar de uma forma tão firme em mim. O fato é que ultimamente minha vida tem estado imersa num tipo pegajoso de decepção, o que deixa subentendido o nível de mentiras que têm me rodeado. Mentiras bobas, fúteis, inúteis, desnecessárias, cruéis. Mentiras inevitáveis. Mentiras que um dia foram verdades. E verdades que um dia foram mentiras. Essas coisas que as pessoas contam olhando nos seus olhos, segurando as suas mãos, essas coisas que muitas vezes até essas pessoas querem acreditar. Quando li a frase, quis ir de imediato pra esse mundo da verdade, pensei: troco de pele e deixo toda essa lama pra trás, vou pra onde tudo está posto às claras, limpo e seco, transparente. Mas logo senti um certo desconforto, senão desespero. Olhei pra todas as mentiras que me rodeavam, pras pessoas impregnadas nelas e delas, e vi os sentimentos que rodeavam essas mentiras e essas pessoas, dentre eles a tristeza, a frustração, o arrependimento, a raiva, o afeto, a alegria, o amor. Percebi que num mundo onde só se diz a verdade, não existe a decepção, mas também não existe mais nada.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

As luas de lua


Cheia de si e de tudo, até a lua estava cheia. O tédio a tomava em grandes goles lentos quando tudo parecia apenas mais um final de tarde que costurava o nada de seus dias com pontos falsos. Como se parasse de acompanhar os ponteiros do relógio, imergiu numa contagem desmedida. Lembrou-se de antes de tudo, da delicadeza dos tempos, da promessa silenciosa feita aos prantos que a partida causa. Lembrou-se de quando prometia, mesmo sabendo que muitas vezes não era de cumprir, mas perdoada feito criança. Lembrou-se de quando acreditava em boas intenções e de quando elas eram de fato verdadeiras. Essa tarde adormecia mais do que o sol, adormecia também um coração no canto do sofá antigo, acolhido pela tv e pelo prato de sopa morna. Não estava totalmente cansada, pois ainda lembrava-se de outros pores do sol e luas cheias, menos nostálgicos, menos coveiros. Também não estava descansada, o que a mantia no sofá era um sentimento desconhecido, mas familiar. Lembrar-se não era exatamente o que a enchia, é que tocava o vazio de tal forma que preenchia algo ali. E era incômodo. Como uma bolha cheia de ar. Lembrou-se do que havia esquecido, a lua cheia perdida na praia, a lua minguante sorrindo embriagada. O pôr do sol nunca visto. Estava cheia, pesada, inerte. Mas ainda havia algo em sua memória que a fazia flutuar pelos espaços da casa e a levavam pra longe dali, onde o tempo sonha. Ainda tinha as estrelas.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Quando tudo vira tédio

Por cansaço ou falta de vontade, não quero sair. Vejo as possibilidades, as companhias e lugares, nem muito nem pouco, apenas desinteressantes. Se ao menos tivesse certeza de que algo diferente fosse acontecer, mas parece ser sempre a mesma coisa, o mesmo papo, furado. Sinto como se estivesse investindo em nada, jogando dinheiro fora. Ao mesmo tempo, sei que ficar aqui não vai mudar nada. Mais vale o silêncio sozinho ou acompanhado? Emudeci porque já ouvi demais, o outro fala o que reflete em seu próprio espelho e, às vezes, isso não é suficiente. Só eu sei de mim, do meu tempo, da minha intensidade, dos meus sentidos. Em mim não cabe a equivalência do outro. Poderia arriscar e sair, uma companhia muda, ou uma conversa fiada, e alguns goles de cerveja, buscar uma embriaguez que alivie o corpo e a alma. Também posso me poupar, tomar uma dose forte e ir direto pra cama. Mas entendi que na introspecção não cabe nada nem ninguém.  Tudo vira tédio quando o tudo e o nada dão no mesmo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A deixa do amor

Às vezes sinto que vou morrer. Outras vezes, que já morri. O trabalho virou um ato mecânico, tento ser máquina, quero não sentir mais nada dessa dor de tudo. O lazer tem sido como fugas, sair pra não sentir a ausência, encontrar na vida do outro algo que abafe os ecos da minha. Não, nunca aprendi o que é o amor, mas sei o que ele é quando vai embora. Sem ruído. Sem silêncio. Sem desistência. Sem resistência. Sem esperança. O vazio que o amor deixa não deixa espaço pra mais nada. É uma dor que de tão intensa não é sentida, e você procura em qualquer estrago físico traduzir a densidade dela pra saber de si mesmo, sentir o que ainda tem por dentro pra não morrer sem sentir nada, senão você vira só mais um corpo, um número no mundo. Sentir-se dor pra sentir-se vida.

domingo, 4 de dezembro de 2011

O descuido do mundo

Você quer o mundo e eu só queria ser o teu. Mas já não posso ser mundo, estou sumindo nessas vontades tão desencontradas, dentro e fora, e nesse corpo cada vez mais fluido me sinto adormecer de olhos abertos, uma insônia que me mantém alerta no escuro da noite e se apaga ao amanhecer. Meus movimentos perderam a agilidade, perdi meus reflexos. O que a gente vê agora? Estou frágil e não sinto fome. Dispenso companhias e imploro pela tua, fico só. E sinto que essa solidão cava um abismo cada vez mais largo entre nós, onde me enterro, me enterras. Abaixo do mundo que a gente quis um dia, enquanto você viaja outra vez.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A preguiça das letras de amor

o coração
perdendo as palavras
o timbre da voz
a firmeza da escrita
cada vez mais
achando em gestos
sutis
a comunicação.