terça-feira, 16 de setembro de 2014

Pelo, peito, pele

é coisa de pele, sabe?
peito que arrepia
arrepio que se fia
frio entre as pernas
passos que se guiam
pelos toques
que se findam
entre os pelos
pela pele.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Fobia de amor

Uns cantam que “você não tem medo de mim, você tem medo é do amor que você guarda para mim”. Uns cantam; outros clamam e, de fato, guardam o amor pelo medo de amar. Sim, medo de amar, de andar de mãos dadas, de abraçar, de olhar no fundo dos olhos do outro ou da outra e dizer as três palavrinhas que, hoje em dia, mais e mais, estão longe de serem mágicas. Amar tem sido trágico e esse medo não é abstrato. Hoje, mais um morreu por causa do amor porque não tinha medo. Quantos mais hão de morrer e viver de medo do amor que mata?

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Sobre amanhã

Caro Cinismo,

eu queria mesmo que você tivesse me deixado quando eu pedi e quase implorei. Mas, como sempre, você conseguiu me convencer que o melhor pra gente era que ficássemos juntos até que tudo se ajeitasse. Me conta, depois disso, por quanto tempo você ainda se enganou pra me enganar também antes de, finalmente, decidir me deixar quando, finalmente, eu achei que daria certo? Tô te escrevendo pra te deixar avisado: tô com a mala pronta, amanhã embarco e nunca mais volto. Diria onde e até quando pretendo ir, mas correr o risco de ver você por perto de novo não quero não. Até porque sempre foi fácil acertar as coisas quando tudo tinha pra dar errado e conheço de cor essa sua manha de provocar casualidades e encontros. Eu sei que de um certo jeito a gente sempre acaba se acertando mesmo, só que pra mim já deu, essa vida sem planos, sem saber como vai ser não tá dando mais. Tá, no fundo, no fundo você sabe, bem que eu queria cruzar nossos caminhos de novo, cruzar, entrelaçar, nem sei, deve ser pela conveniência que você me proporciona com tantas mentiras com cara de verdade de um futuro legal pra gente. Mas, olha, mesmo assim, sabe que vez em quando eu dei pra querer ser solta? Vai que eu me acostumo e, finalmente mesmo, nos deixo ir. Então, me despeço por aqui antes que você chegue em casa e mude de ideia e me convença e me faça mudar de ideia também. De novo. O gás acabou, mandarei o dinheiro do aluguel mês que vem.

Quase sempre sua,
Esperança.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Sobre hoje

Querido Caos,

acabei de acordar e já não entendo mais nada, há pouco parecia ter uma cama aqui, mas são apenas lençóis jogados no chão e um travesseiro feito com mais lençóis. Resolvi te escrever já nesse despertar pra não esquecer o sonho. Prometi que quando sonhasse contigo, de imediato te relataria, e aqui vai: estávamos nós dois num mundo isolado onde não havia tempo certo, só o agora, tinha mais terra do que mar, mas não parecia visto de cima, podíamos também voar, e voávamos sempre, quase não me lembro de termos andado. Dava um frio na barriga toda vez que nos olhávamos e nos percebíamos suspensos no ar, era como se nos reconhecêssemos num espelho, espelho nosso. Exatamente como esse espelho que você deixou pra mim antes de ir embora que agora só serve de moldura pra um mosaico de fotografias de estranhos que ando tirando nos raros tempos livres que me obrigo a aproveitar. Você dava piruetas e cambalhotas enquanto eu checava as esquinas e quinas pra que você não se machucasse. Certo agora, você parou e desceu, reparou num muro solto no meio do nada, que insistia em ficar de pé quando todo o resto já era pedregulho. Nesse muro tinha uma janela e era oca, dava pra ver os cupins fazendo o trabalho direitinho. Depois disso ficou tudo meio embaralhado, você me perguntou se eu ainda queria trocar o trinco da porta e eu disse que trocaria a porta inteira logo, você sorriu e desatou a dar piruetas de novo até sumir entre as nuvens que já anunciavam mais chuva. Chovia sempre, mas tinha mais terra do que mar. Então eu acordei. E eu juro que tinha uma cama aqui, só que é a do outro quarto ao lado, o meu. Outra vez, dormi no teu chão. Acho que é só isso mesmo, eu e você voando, muro, janela e cupins, e chuva. Estou mandando aí uma cópia da chave, está tudo em ordem, aparece.

Quase seu,
 Equilíbrio.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Sobre ontem

Querida Rispidez,

tenho muito pra te contar sobre essa cidade, mas, calma, será aos poucos, em doses homeopáticas, como dizem por aqui. Como sou frágil, você bem sabe, adoeci logo que cheguei, passei uma semana de cama. Meu primeiro contato com alguém foi com o carinha da farmácia, inclusive, nos vemos uma vez por semana em algum lugar próximo ao pôr do sol pra tomar sorvete, mire, sorvete, deixei a cerveja de vez. De cara, ele percebeu que meu mal era a cidade e decidiu que a cada encontro iríamos a um lugar novo. Posso sair uma vez por semana. Ontem fomos a um lugar onde não vão muitos turistas, pedi a ele que não me levasse dessa vez onde tivesse muita gente que fala muito e se entende pouco. Nesta carta, só te conto de ontem, na próxima também. O que fiz nos dias anteriores pode descartar, já que não me deram motivos pra te escrever. Pois bem. Era uma praça num bairro distante, quase saindo da cidade. Tinha uma sorveteria bem na esquina. Ele ficou com açaí, eu, com limão. Acho que por isso você me veio logo ao pensamento. Então comecei a falar sobre ti pra ele. Disse que sentia saudade. Disse que você deveria ter vindo comigo, que poderia ficar bem perto, que mais perto seria melhor. Disse que deveria ter te dito isso antes de partir, mas que não tive tanta coragem como você, também disse que queria ser mais impulsiva e destemida pra dizer as coisas, como você faz. Depois disso, fiquei um tempo sem dizer nada. Quando o sorvete acabou, o dele, o meu derreteu antes, demos algumas voltas pela praça, o sol se pôs, os pássaros viraram morcegos, tivemos que voltar. Mas ainda tive como comprar numa banquinha esse porta-retrato que deve estar jogado na cama enquanto você me lê, a foto é de ontem, tiramos ao lado do escorregador porque você disse uma vez que gostava de escorregadores por causa do peso que eles simplesmente escorregam. Agora me lembrei da tua cama, sempre desarrumada. Ah, como era bom deitar numa cama sem medo de desfazê-la! Você nunca se importou com os meus pés sujos, sempre sujos. Sinto saudade dos meus pés sujos, aqui eles não me deixam ficar descalça. Acho que eles acham que quanto menor o contato for, mais rápido a gente se cura. Talvez por isso eu ainda não possa te escrever. Sorte a minha ter um amigo da farmácia que envia minhas cartas e me deixa ser levada por elas. Acho que mês que vem já posso receber visita.

Sempre sua,
Delicadeza.

domingo, 31 de agosto de 2014

Os ventos de domingo

Os ventos de domingo são distintos 
carregados de uma paz impossível de se ter 
Deixe-se perceber: no sofá 
ou à beira mar 
há sempre uma paz a se esvair 
soprando os juramentos dos dias que passaram até os que estão por vir. 

- Aqui em casa, desde que meu sofá virou mar, os ventos de domingo têm soprado a semana inteira. 
- Oxe, deixe de besteira!

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Geração corante

Entre a fumaça cinza 
a nova juventude 
topando nos muros rígidos 
de verde ainda fresco e azul quase coberto 
por um vermelho escorrido 
no preto e no branco 
com tintas solúveis em água
e pincéis descartáveis
pintando as caras
e as calçadas
que agora padecem a sós
sem bancos nas praças.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O cemitério dos suicidas

Era sempre assim, alguém reservava horário, preenchia a papelada, recebia o material necessário e ia pra casa. No dia seguinte, como combinado, eles iam lá e recolhiam o corpo. Por vezes, havia velório, mas a maioria optava por simplesmente ir de uma vez, sem pós-despedidas, somente deixando a carta de intenção que ficava junto aos outros formulários: para público geral ou destinatários específicos. Era um ótimo negócio, bastava uma salinha, um arquivo e um terreno bem cuidado. Em tão pouco tempo, com a legalização do suicídio, já tinha alcance nacional. Publicidade e propaganda quase não precisava, afinal, todo mundo é um suicida em potencial: “Escapulários: a cura pela autonomia. Totalmente seguro, insensível e indolor, qualidade garantida!”.

Não era como as funerárias e cemitérios comuns, não refletiam nada fúnebre nem precisavam abusar dos verdes campos e suas flores, eram até bem felizes e saudáveis, de fato. Mas havia um problema que começava a se alastrar: na boca do povo ecoava o chamado Cemitério dos Suicidas, e isso ia cada vez mais se espalhando pelo país, o que não era nem um pouco bom para a imagem da empresa que pretendia expandir os negócios aos países vizinhos e, em breve, mundialmente. É que suicídio e seus derivados não soavam bem para ramo nenhum, a palavra ainda era carregada demais para a economia. Foi então que Seu Enzo, pioneiro e maior empresário do mercado suicida, idealizador e dono único da Escapulários, decidiu contratar um linguista renomado e um especialista em marketing para lidar com esse contratempo.

Depois de complexas, fundamentadas e calorosas discussões entre os dois, e de descartar a ideia de abolir a palavra do dicionário, chegou-se à simples conclusão: a solução seria descarregar o peso da palavra popularizada, atribuindo valor de mercado e inserindo na mídia um termo alternativo para aqueles que sem os devidos aparatos regularizados decidiam tirar a própria vida. Dentro das condições legais, o suicídio, enfim, seria naturalizado, legal e popular, e a corporação poderia continuar com seu nome de registro e seu nome vulgar sem maiores danos.

Com isso, aos poucos, foram surgindo os chamados sáfaros, indivíduos que simplesmente se matavam sem registro na Escapulários, que passou a ser obrigatório, sendo enterrados em cemitérios comuns junto aos outros, causando um grande misto de classes: ali não se sabia mais quem morrera de morte morrida e de morte matada, informação imprescindível para manter o controle de mortalidade. Nisso, Seu Enzo logo recorreu ao poder público, não lhe bastasse o primeiro incidente de nomenclatura, agora vinham com essa de burlar o sistema de Cadastro Suicida Obrigatório (CSO). Além do mais, não somente a empresa estava sendo afetada, mas toda a sociedade, tudo se encontrava à beira de um colapso: economia, segurança, saúde. Disso, Seu Enzo fez um acordo com o Governo e, aliados, implementaram o Seguro Nacional Suicida, vinculado à Escapulários. Cada cidadão ou cidadã tinha mais um direito garantido. A taxa era cobrada mensalmente e, para maior comodidade, inclusa na conta da luz.

Com essa medida, a economia do país alavancou, os altos índices de ocupação de leitos nos hospitais diminuíram e os sáfaros reduziram consideravelmente, de início, não se morria mais de qualquer forma, o selo E estava garantido a todos. Só que essa paz durou muito pouco tempo, pois nem todos tinham condições de contribuir com mais uma taxa, tampouco com a iluminação que vinha cada vez mais cara. Logo os grupos que iam ficando no escuro já com o por do sol começaram a se aglomerar nos litorais das cidades: improvisavam casas com restos de madeira que iam encontrando pelo caminho e se mantinham a partir dos bairros vizinhos, onde batiam de porta em porta. Os litorais começaram a ser isolados, salvo poucos que serviam ao lazer e turismo cidadão e eram mantidos a duras penas pela segurança preventiva e apropriadamente equipada. Enquanto isso, todo o resto ia servindo de abrigo mais e mais a comunidades inteiras.

Não se entendia ao certo o que causara tamanha crise, mas, por enquanto, ignoravam isso, pois a ordem das metrópoles estava abalada, as taxas de suicídio ilegal haviam crescido, os sáfaros estavam superlotando os cemitérios, o suicídio legal estava perdendo a credibilidade, o que provocava aumentos abusivos nas taxas suicidas, e a economia mundial estava sendo afetada. Após incansáveis discussões e negociações entre ministérios, secretarias e coordenadorias, foi decretado estado de emergência e o Governo não teve outra opção a não ser regulamentar mais uma lei de proibição, que saiu imediatamente clara e concisa, sem mais formalidades, em todos os jornais do país, inclusive nos jornaizinhos de bairro. A partir daquela data de publicação, ficou terminantemente proibido o suicídio sáfaro, sob pena de multa, reclusão e capital ao indivíduo direta ou indiretamente responsável pelo indigente.

domingo, 20 de julho de 2014

Os contos que me devia

Gostava de sair, mas não nos finais de semana, que se resumiam a uma ressaca sem fim, ressaca por excesso de vida, e por isso preferia não falar com ninguém, até me conhecer. Tinha um tom contraditório que variava entre os extremos: quando não muito à toa na vida, muito compromissado; era isso o que mais me encantava e, por vezes, me fazia odiá-lo. Só não odiava tanto assim porque já o amava, e amor não tem noção. Às vezes me vinha como resposta só o desdém, talvez assim o fizesse se sentir mais meu, mas era só birra minha, pois tudo o que me contava dos domingos, ou sábados, incluía sempre um "ainda te convenço um dia a ir comigo". Já o encarava à espera, quando demorava ou hesitava um pouco, só me vinha a mesma vontade de querer encerrar ali mesmo aquele monólogo bobo de suas aventuras sem fins. Mas sem meios, continuava a ouvi-lo, tentando achar em cada frase algo que me desse um pronome possessivo e me reafirmasse: meu. E de todos. Não havia ciúmes, nem sequer possessão, me valia mais sabê-lo comigo sempre no fim da noite, do dia, mesmo que passasse por todos os outros, quaisquer, nenhum que lhe valesse o gasto da memória, ele dizia. Era meu sem ser, apenas sendo.

Numa de suas saídas, veio me bater a porta no meio da madrugada. Bêbado, talvez, pois nunca sabia exatamente o quão lúcido estava, tendo bebido ou não, ainda com os sapatos nos pés, ainda com o jeito de sempre chegar em minha casa: disfarçando qualquer noitada num banho rápido e enxaguante bucal. Aliás, sempre me parecia assim, recém saído do banho, por mais que passasse em todos os bares e festas da noite, estava sempre com tons de lucidez e perfume. Talvez por isso não me chateasse tanto quando chegava, talvez por isso logo em seguida da raiva, me viesse somente a vontade de ouvir suas histórias e esperar alguma desculpa pra me ter nelas um dia. Entrou silencioso, quase como um equilibrista, deitou-se na cama por uns instantes, a água já estava na cabeceira, dessa vez não fez cena pra tomar logo, nem o comprimido. Logo dormiria. Acho que era o único meio que tinha pra dormir: minha cama, água na cabeceira e o bendito comprimido. Pelo menos me deixava mais aliviada vê-lo ali, seguro de si e de mim, finalmente em paz, apesar de sempre deixar solto que me dava nos nervos quando chegava de madrugada, meio bêbado, meio lúcido, a ter que pensar logo em algo pra fazer as pazes quando fechasse a porta do quarto.

A história foi a seguinte: havia marcado de sair com uma amiga que não via há tempos, que acabou não aparecendo, nem lembrava o motivo. Ficou sozinho só até o terceiro copo, logo conheceu os dois rapazes sentados ao lado que discordavam da música que tocava. Tendo os três concordado em discordar, partiram dali pro primeiro lugar que tocasse o brega da noite; o que era difícil numa noite de sexta viciada em hard e house, o que tivesse movimento. Acabaram indo parar num boteco que mais parecia uma residência com cadeiras na calçada a falar da vida alheia, não fosse pelo horário, não fosse pela total ausência de vida alheia, senão a deles. Rádio FM. O dono, Seu Adelino, não hesitou em sentar-se num banquinho próximo a eles e a falar das vidas que passavam por ali e por onde ele passava. Noutro dia, aparecera uma moça, mais ou menos naquele horário, parecia esperar por alguém, sentou-se, pediu uma água. Já era tarde, pediu a primeira cerveja, os primeiros goles foram lentos, até que veio a segunda, a terceira, quarta e a manhã. Bebeu aos poucos, e a cada gole olhava o celular, quem quer que fosse, não ligaria, mas mesmo assim esperava. Ninguém ligou. Desceu a rua nem um pouco cambaleante com o que sobrara da água, dali não se sabe. Seu Adelino nunca tinha visto ninguém esperar tanto assim por ninguém, disse. - Pois eu sempre a espero, e nessa espera sempre acabo fazendo-a me esperar mais do que devia. Disse que disse a eles. Não acreditei, talvez fosse só um jeito de pedir desculpas antecipadamente. - Um dia ela vem. Sem birra nem descrença. Foi ai que decidiu dessa vez interromper tudo o que viria a fazer, pegou o primeiro táxi e veio bater a minha porta.

No outro dia, ao acordar, quase não percebeu que estava ali, olhou pra mim com dúvida e questionamento, e eu respondi com expressão nenhuma, a esperar o resto da história que me convencesse de qualquer coisa, que me lembrasse: amo mais do que odeio, amo mais do que odeio. Foi difícil quando começou a viajar, mais ainda quando perdeu completamente a lucidez e o caminho de casa. E eu ficava sem saber quando estava ali de propósito ou por acaso, a ouvir suas histórias, à espera.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Diarista

Quando quiser fazer visita
olha, avisa
tenho adiado a faxina
no quarto, na casa
e na vida.