sábado, 23 de junho de 2012

"Uma chata cheia de manias"

Diante das contas de um rosário,
diante de um terço de pedras pretas.
Dizem que se rezarmos diariamente,
Maria nos assistirá na hora de nossa morte.
É tarde - nem tanto - e eu preciso de ideias.
De uma frase perfeita para justificar o verso.
Mas primeiro, tudo que eu sempre quis,
desde que me acordei de manhã cedo,
era mesmo um cigarro.
E dei para justificar um cigarro
com um copo de bebida
ou com um momento sem ideias.
Essa mania doida de ter que ter ideias.
Essa mania doida de pedra de crer que devo
cometer a grande frase.
Induzir sentimentos intensos.
Sou uma chata. Uma chata cheia de manias.
Ainda acredito conquistar corações,
ainda acredito que só sei conquistar corações
tendo ideias. Eu sou a rainha das ideias.
A "Miss Coração Solitário".
Que na verdade disfarça, teclando teclando,
com dedos que querem cigarros.

Fico bem de negro. É a minha cor.
Todo mundo deve ter uma.
Aquela que só se empresta a quem amamos.
Já quis ter, um dia, um vestido
de paralelepipedos esvoaçantes.
Agora que, enfim, estou fumando,
gostaria de um drinque e um xale
de contas de rosários

Sou mesmo uma chata
que adora desculpas do existir.
Mas, se quiser, lhe empresto agora
todo o meu negro. Aceita?

Poesia de Fernanda Young, 
em Dores do amor romântico.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Eu diria que


Não sei o que dizer, mas já quero te dizer tanta coisa que tenho me atropelado nas minhas próprias palavras e nas dos outros. Aos tombos, tenho procurado nos velhos poemas coisas simples ditas de um jeito menos meu pra te mostrar que não sou tão crua, só que tudo parece exposto demais, tão não você, mistério. Tentei procurar em poucas palavras aquilo que me traduziria, mas não quero também que você pense que sou assim tão minimalista, mesmo estando por inteira em cada vírgula, enquanto você, num romance inteiro. Cheguei a arriscar nos ritmos estrangeiros tortos que ando ouvindo por aqui, só que tudo veio denso demais, não quero que me ouça assim, pois minha densidade quase chega ao solo de um violino, já você, a delicadeza de uma flauta doce. Busquei a leveza da bossa, do novo velho mpb, mas me sussurraram algo que tenho perdido há tempos, trechos que você declamaria numa paixão ingênua e sincera. Tentei encontrar em antigos escritos, sentimentos remotos, algo que pudesse dizer qualquer coisa que não as baboseiras que tenho me atrevido a pronunciar ultimamente, mas tudo em vão, eram palavras cruas, nuas, densas, frágeis e bobas, eram palavras tão eu. Hoje, o que gaguejo em dizer são vultos de paixões e amores que não refletem em ti, são palavras que não te alcançam. O que é preciso ser dito ainda está pra crescer, pois você acabou de nascer em mim, como uma flor que nasce no meio de uma estrada abandonada, solo de concreto, e traz consigo toda a primavera. Não sei o que dizer, mas já quero te dizer tanta coisa que espero que você me espere. Reflorescer. Mesmo que eu continue tão eu, e você tão você, se fará um poema, um conto ou um romance regado a palavras tão nossas que até no inverno haverá flores pra enfeitar nossos dias.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Soltas reticências


Mas a verdade é que quando me desatei e desatinei a viver o mundo outra vez, esse de nó frouxo, da tal liberdade sem hora marcada, dei de cara com as tais das reticências, esses pontos soltos que afrouxam os "happy endings" da vida, em cada esquina, um engodo em cada amarra. Desses, minhas fraquezas e fortalezas, e minhas paixões. Platonismos às avessas, amores despedidos, perfumes ainda impregnados de memória, o cheiro do mar, da chuva, alecrim, a batida do tambor, os beijos escondidos, apressados, desencontrados, desmedidos, interrompidos. E foi nesses esbarrões, no canto de cada meio sorriso cínico dessas esquinas, que vi espelhar aquela, dentre tantas outras, num olhar escuro, quase olhar abismo, quase caos, quase caso, ainda vívida, ciente de si, mas adormecida, ainda que estremecida a cada possibilidade de encontro. No perfume, no jeito torto, na assimetria coordenada em mim, reencontrei o que nunca havia perdido: um capítulo ainda a ser escrito.

domingo, 29 de abril de 2012

Em estado de amor

O amor pra mim é isso que pensa e também sente, essa coisa que percorre nossa pele e arrepia, que dura pra sempre ou o instante de três segundos, o verbo que pode ser conjugado em todos os tempos, o concreto que pode ser quebrado ou a flor que talvez nunca murche. O amor não é mais nem menos, maior ou menor, melhor ou pior, é simplesmente o estar, e não o ser, como a tal vontade que dá e passa. O amor, como tudo no mundo, é relativo, transitório e finito. Não, não superestimo o amor, nem subestimo.

terça-feira, 24 de abril de 2012

"Diga não aos covardes!"

Um brinde aos passos minúsculos desses seres rastejantes. Andam na velocidade de uma boa notícia quando a ansiedade já extrapolou a lógica da espera.

Chega de meias bocas pra preencher profundos vazios. Meias bocas para beijar entradas inteiras. Meios beijos de respeito na testa. Meias palavras para dizer alguma coisa que, feita a análise fria, nada querem dizer. Intenções soltas e desejos desconexos. Esse mistério todo é uma violência contra a minha inteligência. Sejamos diretos para não sermos idiotas: eu te quero. Você me quer? Não sabe? Ah, então vá pra puta que te pariu. (E vá ser vago na casa da sua mãe porque embaixo da sua manga eu não fico mais!)

Este rebolado colorido que descola de seu cenário pastel, vem de meu ventre. Livre. Portanto não tente me escravizar, nem com promessas, intelectualidades, ou uma pegada daquelas. Este rebolado é quase que instintivo, meu jeito, nada sutil, apesar de ser essa a intenção, de te mostrar que há chances de ultrapassagem.

Seja inteligente, faça jus à espécie, seja Sapiens. Perceba o sinal verde, ultrapasse.

Não sabe se quer acelerar o motorzinho? Então vá treinar com uma boneca, uma revista, uma prima, a chata da sua mulher, a sem-sal da sua namorada ou o raio que os parta todos os mornos. Eu não sou morna e, se você não quiser se queimar, morra na temperatura do vômito.

E bem longe de mim. Ou venha me ajudar a ferver essa banheira. Vamos ficar cegos de vapor e vermelhos de vida. É sangue que corre nos meus sentimentos e não o enjôo morno de uma vida que se vai empurrando com a barriga. Barriga que vai crescer no sofá imundo dos acomodados. Eu ainda quero muito. Quero as três da manhã de um sábado e não as sete da tarde de uma quarta.

Vamos viver uma história de verdade ou vou ter que te mandar pastar com outras vaquinhas? Docinho vá fazer pra quem gosta de lamber o seu cuzinho, porque aqui nessa boquinha só entra cher nourriture . Vá contar esse seu papinho de "Hey, you never know" pra quem conta com a sorte e sabe esperar.

A sorte é sua de ser amado por mim e eu quero agora, ontem, semana passada.

Amanhã não sei mais das minhas prioridades: posso querer dormir com pijama de criança até meio-dia, pagar 500 reais numa saia amarela, comer bicho-de-pé no Amor aos Pedaços ou quem sabe dar para o seu chefe em cima da mesa dele.

Minha vontade de ser feliz é como a sua de gozar. E se eu te iludisse de tesão e levantasse rápido para retornar a minha vida? Você continuaria se fodendo sozinho para fugir da dor: é assim que vivo, masturbando minha mente de sonhos para tentar sugar alguma realização. É assim que vivo: me fodendo.

Chega de ser metade aquecida, metade apreciada, metade conhecida. Chega de ser metade comida em meios horários e meio amada em histórias pela metade. Chega de sorrir para o que não me contenta e me cobrar paciência com um profundo respiro de indignação.

Paciência é dom de amor aquietado, pobre, pela metade. Calma, raciocínio e estratégia são dons de amor que pára para racionalizar. Amor que é amor não pára, não tem intervalo, atropela. Não caio na mesma vala de quem empurra a vida porque ela me empurra. Ela faz com que eu me jogue em cima de você, nem que seja para te espantar. Melhor te ver correndo pra longe do que empacado em minha vida.

Texto de Tati Bernardi

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Um tempo


No horizonte, me perco
penso, como você está?
Mas em meus caminhos, me encontro
sabendo como estou
Passos firmes, linhas tortas
Destino? 
O presente.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Seguro sem vida

Três segundos. Era tudo o que separava minha boca da dela. Dois. Então um sorriso torto e um olhar distraído pelos vultos que passavam bêbados entre a calçada e a pista nos separaram por mais uma noite inteira. No outro dia, talvez começasse tudo outra vez, se houvesse outra vez, aperto de mãos ou abraço, um "oi" e um descaso, depois de um tempo e de um vinho ou cerveja ou vodka, o tempo de outra conversa, quem sabe, e a mesma distância de um risco adiado, congelado em três segundos. É que juntei meus medos e agora eles me asseguram um pudor e uma timidez sem alma, que me rodeiam só pra me manter com os pés no chão, firme, fixo, de um vazio seguro, como sapatos na praia, que nos protegem de pequenos objetos pontiagudos, mas nos privam de sentir o friozinho do encontro entre a areia e o mar. Nunca mais estive na distância de um segundo.

sábado, 31 de março de 2012

Bicicleta



Não havia contramão pra ela
todas eram a seu favor
pista de dança, estrada
aquarela
sem receios, ânsias
ou pudor.