segunda-feira, 14 de novembro de 2011

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A moça do olhar perdido

“Hoje às 17h30 no calçadão, vamos ver o pôr-do-sol, galera! Depois aquela cerva no Doors.”, escreveu e publicou na rede. Mais tarde, umas cinco ou seis pessoas a encontraram, alguns eram amigos mais antigos, outros, amigos de amigos. Era assim quase sempre, um convite à toa, encontros no fim da tarde e noite adentro, conhecidos ou não. Gabriela gostava disso, dessa imprecisão da vida, do acaso quase planejado e também de uma certa popularidade que veio meio que instantânea, talvez pela empatia que carregava desde o berço. Eram doses de sol, de chuva, de lua cheia, privês, sextas, sábados e domingos, não deixava passar nenhuma folga do trabalho. Até que não tinha um emprego ruim, fazia o horário durante a semana, cumpria as metas com antecipação, ficava a maioria do tempo cativando a vida. Tinha amores também. Platônicos, breves, intensos, convencionais. Nunca chegava nem saia sozinha e, raramente, com a mesma pessoa. “Tanta gente no mundo! Se prender às lamúrias de uma só pessoa pra quê?”, evitava as dores inevitáveis do amor, se gastava de pessoa em pessoa sem se fixar, sentia apenas as amizades enquanto não passava o tempo dessas tomarem outros rumos, porque, afinal, sempre tomam.

Érico a conhecera num desses encontros, amigo de Guilherme, namorado de Luiza, uma das amigas de Gabriela. Não sei se a palavra certa seria conhecer, pois quase nem se falaram. Talvez saber. Soube de Gabriela num desses encontros. Meio tímido, ficou ainda mais com toda a extroversão dela. O que lhe chamou atenção foi a verdade que cercava aquela garota, desde os sorrisos até alguns poucos momentos de olhares perdidos. Ela era bem ela, alguém tentando escapar das pedras da vida, aproveitando os bons ventos a seu modo, como todos, aliás, também tentam fazer todos os dias. Só que ela era uma verdade, era límpida em seus atos, de uma sinceridade que irritava quando mandava alguém praquele lugar por algum problema ocasional ou quando decidia simplesmente fazer o contrário de todos os outros, totalmente desimpedida. Parecia alguém que não se preocupava com a solidão, pois não fazia questão de manter as boas maneiras da boa vizinhança quando não queria. Além do mais, lá no fundo sabia que ficar sozinha era algo que só dependia dela mesma, não precisava se esconder atrás de máscaras. Essa transparência toda, por mais que afastasse algumas pessoas, também aproximava outras, mesmo que tudo fosse se passando em momentos breves, ébrios. Havia percebido nela também um certo desespero, como se buscasse em todos os lugares e pessoas alguém que pudesse postar-se assim tão nua quanto ela. Era o que era ou era o que ele queria ver. Passou a se importar.

Gabriela não percebia muito o que vivia, pois tentava demais perceber tudo, longe e perto. Na tentativa de sair das superfícies e imergir noutros sentimentos, acabou se tornando vaga, perdendo o ponto. De tanto ir e vir, com muitas perguntas e nenhuma resposta, passou a viver as coisas de forma imediata, apressada. A única coisa que não perdera foi a si mesma, sua essência, mesmo não notando mais nos espelhos quem olhava, só os outros viam. Os outros que a acompanhavam vez por outra, aceitando seus convites, menos Érico, que limitou-se a apenas ter conhecimento deles. Sabia sempre onde iria e a que horas iria, o que qualquer um poderia saber se quisesse. Na segunda ou terceira, e última, vez que se encontraram, tiveram mais proximidade, conversaram um pouco sobre qualquer coisa, mas isso só o convenceu de que não era isso o que ele queria, então resolveu não estar mais tão à vista, já que queria ser visto. O que ele não sabia é que ela jogava convites ao vento e ficava à espera. Esperava que alguém chegasse mais perto, que de qualquer coisa saísse alguma coisa, esperava talvez por ele, pelo quarto encontro. Uma espera já dormente. Ela, que fazia de todo mundo troféu, mal sabia que era troféu de todo mundo.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Nota de desfalecimento

Aos meus queridos que me cercam no dia-a-dia, no passado, presente, futuro ou imaginação, em pensamentos fixos ou móveis, toques ou olhares, suspiros ou declarações, desejo uma felicidade plena, eterna, dessas que encontramos em momentos breves, espontâneos, uma sinceridade que, mesmo mentida por tão verdadeira, mantenha a chama acesa da esperança, ou ilusão. Peço perdão pela distância, ou pelo descaso, por vezes tão presentes, que me posto, pois apesar de ainda acreditar nos sorrisos ingênuos de um brinde ou abraço, no instantâneo, não me iludo mais com proximidades. Sou só. E o tempo todo estou somente. Espectadora da alegria alheia, mesmo que minha. Feliz, talvez, de um sentimento vivido, sentido, mas adormecido ou morto. Pois sou corpo sem alma, não consigo mais manter a calma e tampouco largar as armas. Além de tudo, peguei distância pra ver melhor o que não havia e acabei não vendo muita coisa boa. Fui corrompida e perseguida por muito tempo pelo mundo do sim, dos risos frouxos, das mãos escorregadias, estou agora em queda livre. Talvez haja algum galho seco que eu possa me agarrar, talvez uma flor ainda por vir, talvez  tudo, talvez nada. Talvez eu volte. Por enquanto, o que me interessa manter em vista é a relatividade, o acaso, e essa distância, tempo e espaço, na qual tropeço e caio em cada prova de.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

- Desliga e acabou.

O silêncio do outro lado da linha
depois do agora, do tudo
não era o de quem vinha
não diz nada 
não são palavras nem atos
e sim um fato
é apenas um telefone mudo
de quem não grita pelo futuro.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

"Um passo atrás, dois a frente"

Menos eu. É quase alguma coisa assim de exclusão com subtração. Todos, menos eu. Estou muito menos eu. Deu pra entender? É que se não deu, não vou poder explicar, tenho que pensar em outra coisa, não em mim, mas talvez no que me sobra. Pensar no amor, parar pra pensar nele, pensar pra parar nele. Só que não entendem: parar pra pensar no amor pressupõe um não pensar que se pensar nele, não se rende a ele. Como um suicida à beira de um prédio, avistando apenas o céu por alguns instantes, depois olhando pra baixo, carros, pessoas, talvez olhando pra frente, se deixando cair, não pensa, porque se pensar, não pula. Mais ou menos isso. Menos! É como tenho me sentido. Ao lado dela ou longe. Mas de que amor estamos falando aqui, esse que não é mais? Talvez deva parar pra pensar nisso. Talvez seja a hora de buscar outra sanidade aqui dentro e dar um passo atrás. Ou a frente. De qualquer forma, não seria eu. Então não penso. Ou não. Onde menos devo ser ou estar?

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Pássaro de neve


Estava tão fria que abafava o calor do sol, tinha o mesmo clima que precede alguma nevasca em torno dela. O tempo se fechando, as cores se apagando, o vento sutil, mas gélido. Todos ali pareciam querer se esconder também, se abrigar em algum lugar seguro que não os óculos escuros que cobriam seus rostos apavorados pelo sopro sereno de vida que ainda permanecia no rosto dela. Parecia sorrir, parecia querer deixar escapar ainda aquele sorriso meio ingênuo, meio sofrido, que só ela tinha quando sentava aos pés de uma árvore ou de uma nuvem para acalmar as angústias que os olhares afiados dos outros lançavam em seu coração, mesmo que despercebidos do que faziam. Fria pelo abraço da morte o qual buscou, mas viva por tudo o que ainda tinha a sentir seu corpo miúdo. Além disso, estava mais pálida do que de costume e os cabelos negros, dessa vez naturais, acentuavam o tom de partida. Opostos simétricos que arrebentam a corda num jogo de força, sem vencedores. 

Havia um precipício dentro dela que jamais conseguira entender. Análise, terapia, meditação, nada, nada resolveu. Abandonou-se em si e deixou que os chãos a levassem pra qualquer lugar, pois tinha ainda esperança, talvez pelo caminho encontrasse outras formas de voar por cima desse abismo. Foi então que vieram as confusões. Amores, paixões, platonismos, amizades, sentimentos furados que dispensam razões e também alguém com tantos furos quanto eles, pois ambos precisam de qualquer coisa que os mantenham. Viu-se numa disputa dela contra ela, o amor precisava sustentá-la e sustentar a si mesmo. Agonias, dúvidas, vontades, ausências, traições. Mas era delicada demais, pois não teve tempo de reforçar seu corpo pelos anos que a tomaram, buscou tanto sua alma que perdeu a força da carne, não suportou nem a si mesma. Foi uma luta vã que serviu apenas para deixá-la consciente por um tempo. Tempo necessário para mostrá-la já tão quebrada a outro e dar vida a outro tipo de vida. Uma espécie de loucura a dois que colava um ao outro e todos os outros sentimentos que um dia a fizeram ir mais e mais fundo em si.

Foi uma desconstrução que uniu pedregulhos, formou batentes e desses, degraus improvisados. Construíram juntos seus reforços e suas fugas. Iam além do que os passos permitiam, num voo de pássaro novo. Mas ainda faltava algo. Ela ainda sentia aquele abismo e queria tirá-lo dali, pois então talvez tudo se tornasse pleno ao menos pelo tempo dela sentir um sorriso largo em seu rosto. Subiu as escadas levando consigo cada pedaço de concreto até o ponto mais alto, assim jogaria tudo lá embaixo e taparia todos os buracos que ainda haviam. No alto, abriu os braços e sentiu o vento bater contra seus cabelos, sentiu-se segura, algo ali a protegia. Tão serena, tão leve. Tudo era real naquele momento, até ela, seu corpo frágil, sua alma pesada. Um sorriso escapou deixando mostrar os dentes tão brancos quanto ela antes do voo... Mais parecia flutuar.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Amor bordado

Eu
que tanto quis
nós
sem pontos
fui logo cair na lábia
da moça
que não dá
ponto
sem
nó.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

•Rec

— Por que você fez isso?
— Mas eu não fiz nada.
— Então por quê?

Nos diários de uma memória falha, releio coisas que escrevi na minha vida. Tudo borrado. É que já tentei apagar e reescrever, retomar causas perdidas. É que ainda quero poder viver tudo outra vez, só que dessa vez diferente: traçar o futuro no passado. Nessas andanças do amor, me inverti, perdi o fio da meada das paixões, que ela se converteu.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Marionete

o que todo mundo é ou deveria ser.

Manipuladora 
da 
minha 
própria 
vida.