sábado, 30 de abril de 2011

Alguma coisa de um sábado à noite

Vem e traz aquele velho e bom vinho barato pra gente beber. É sábado, você sabe que não costumo sair, que prefiro ficar em casa me resgatando nas músicas, nos livros, nos rabiscos, você sabe que costumo te esperar aos sábados, mesmo que você quase nunca venha. É triste, eu sei, esperar o que talvez não chegue, mas é mais triste ainda ter certeza de que não vai chegar e mesmo assim esperar. Então ao menos pensa em vir. Fico na sala deitada no sofá, como da última vez, você no quarto fingindo dormir, o vinho por terminar, a gente também. Tudo bem se ficam essas pendências, sempre foi bom abrir a geladeira e achar três dedos de vinho pra beber bem na hora exata, num sábado, quando fico sozinha em casa, como agora. Talvez eu compre mais amanhã, vá à praia no fim da tarde, sente na areia meio molhada e sinta os últimos raios de sol pintarem o céu de laranja, vermelho, roxo, azul-marinho. Você bem que poderia vir, trazer o vinho, dormir aqui, na minha cama, durmo no sofá, amanhã a gente vê o que faz. Te espero até meia-noite. Mas você sabe que enquanto não dormimos, o sábado vai continuar rolando, né? Talvez até amanhã de manhã ainda seja sábado pra mim. Ultimamente, meus dias tem se estendido até de manhã, é até interessante amarrar a semana assim, toda embaraçada. Passei o dia nesse computador hoje, não li nada de cult pra fazer a linha por ai, também não escrevi nada confuso pra entrar na moda complexada, só fiquei aqui curtindo as músicas, fazendo um cd bem misto, você sabe que eu gosto de fazer cds pra presentear. Conheci alguém. Não nesses chats da vida, você sabe que não faz o meu tipo. Na verdade, já conhecia, hoje só reconheci. Foi um dia de descobertas, de novas amarras, de desabafos, fiz um amor-amigo. Descobri que já tinha amores-amigos, só que esse é bem diferente, sei lá, meus olhos brilham doutro jeito, tenho vontade de me tornar melhor, de cuidar, de ser cuidada. Não precisa ter ciúmes não. É um encanto puro. Você sabe que eu me encanto pelo encantável. Tive saudade de quando me encantei por ti. Ainda me encanto, só que de outro jeito, esse lateja, às vezes dói. Andei lendo algumas coisinhas que te escrevi, você leu? Faz tempo desde que mandei e são tantas coisas. Algumas nem lembrava que havia escrito, me estranhei comigo mesma. Você bem que poderia ler, de novo. Aliás, você bem que poderia vir pra cá, trazer o vinho, lemos. Vai ser estranho, eu sei, ver palavras tão antigas, relembrar tudo e perto de mim. Certamente, quando leu, estava triste ou com raiva, você sabe que vivo fazendo besteira. Mas lembro de algumas cartas felizes, que você nunca respondeu. Nunca mais correspondeu o que tenho de bom, agora é só eu pisar na bola que os céus caem! Eu sei que você pensa em mim e também que escreve pra mim e que talvez nesse momento esteja pensando em vir pra cá, trazer aquele vinho, dormir na minha cama. Vem. Você sabe que sempre vou abrir o portão. Até porque se eu não abrir, você entra pela janela. Selecionei algumas músicas, você sabe que sou boa nas escolhas, vai gostar. Sinto que estou falando pro vento. O ruim de falar pro vento é que as palavras se misturam todas, pode haver mal entendido, você vai entender tudo errado. Então vem pra cá ouvir o que ainda tenho pra te dizer. Juro que durmo no sofá se você quiser, não precisa nem dizer, porque eu sei quando você quer, nunca quer. Não precisa nem trazer o vinho, ainda temos as músicas e no céu tá uma lua que dá a maior embriaguez, não duvido que o mar já esteja de ressaca. Sei que você talvez não venha e que sabe o quanto vou te odiar até adormecer. Então se não vier, não avisa, tá? Estou esperando.

Um balão, uma bola de canhão

Ando me sentindo tão cheia ultimamente. Cheia de clichês ou de nada muito comum, acho que de dúvidas ou de certezas, não sei exatamente. Só sei que me sinto extremamente cheia. É aquela sensação de comer sem fome, que não vê mais diferença nenhuma entre a boa ou péssima culinária, ou de comer porque precisa, porque o corpo desfalece, ou por gula, mas sem a mínima fome, completamente cheia, entupida até a alma. Nada tem graça nem desgraça, nem o preto nem o branco. Tão cheia que não faço mais questão de andar, estou cansada, sempre cansada, com sono, numa eterna sesta. Estou cheia de todos ou de mim, preciso me livrar de alguma parte que pese mais do que o mundo, não sei me jogo de dentro pra fora ou de fora pra dentro, não sei se ocupo o espaço ou se ele me ocupa, não sei se me movo lentamente ou se todos correm demais atrás da cura atropelando as cicatrizes. Acho que estou cheia das cicatrizes também e de todo esse papo de cura e de dor e de queda e de salto e de corrida e começos, recomeços, desfechos. Pode ser o tal ciclo ou a linha tênue, mas não me sinto nos extremos nem no centro, nem sei se estou por dentro. Ando cheia demais, sem fome, sem vontade. Sempre tive medo da conformação, mas não é isso também, estou parada porque nem o cotidiano conformista me instiga. Cheia do incomum, da conversa fiada, do desespero pra ser diferente, completamente igual. Não sei se morri semana passada, se sou cinzas à espera da renovação, se alguém me guardou em algum lugar seguro ou se me dissipei pelo ar, não me procuro. Talvez essa falta de fome seja fome em excesso, eu esteja inchada de alguma ressaca ou o álcool tenha fermentado minha mente, pode ser engano, pode ser uma ilusão, talvez eu possa não estar sentindo mais nada mesmo, nem esse peso todo que me cerca os pés. Cheia de indefinição e repetição. Viajei, não tive curiosidades, não fiz turismo barato nem predatório, apenas dormi do mesmo jeito num colchão diferente, vi pessoas diferentes fazendo as mesmas coisas, vi lugares diferentes com os mesmos ritmos. Pensei em largar a faculdade, mudar de curso, procurar um trabalho - em vão, tudo daria no mesmo fim. A questão é que estou cheia da vida e não tenho espaço pra me mexer dentro dela, preciso me esvaziar, abrir alguma ferida nova, deixar o sangue fluir, respirar. É o mesmo ciclo, mas eu tenho que sentir de novo o sangue correndo em minhas veias, esquentando a pulsação de um coração cheio de sabe lá o quê. Estou tão pesada e tão leve, que não me sinto, não sei se machuco ou se encanto, tenho medo de me movimentar e também de ficar parada. Tão cheia, que talvez já nem exista mais.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

a[L]titude

Não, não pare assim tão bruscamente, não cale mais ainda esse silêncio. Podemos continuar andando, mesmo assim devagarzinho, medindo as palavras e as quedas, quebrando aos poucos cada pedra que forma esse abismo e construir uma ponte de pedregulhos. Talvez volte nossa coragem de correr pelo chão frouxo. Ou o medo de cair grite, mas que grite, nada que cale, porque pelo grito também podemos continuar, mesmo parados. Só não pare e cale. Podemos nos jogar também, fingir voo, em silêncio, tudo o que tenha movimento, voz ou corpo, gesto ou imaginação. Que você vá pra lá e eu pra cá, mas que vá, porque noutra ponta é certeza o encontro, ou então que o lá e cá faça clá e de um nó fique os nós. Só não pare, que pedra parada se dissipa com o tempo, não seja o solo que eu piso, mas o caminho que eu faço.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Querer, poder, sentir...

Não penso em refletir se o mundo acabasse amanhã, mas sim se eu acabasse. O amanhã com o mundo e sem mim repercute totalmente diferente se tudo mais tivesse fim. O que eu faria se eu acabasse amanhã, mesmo sabendo que depois ainda ressoaria o meu eu por ai entre bocas e becos? O que diria?

Talvez falasse em descuido, descaso, desapego. Talvez gritasse independência hoje, morte amanhã! Talvez amasse pra fora, sem medo de magoar mais ninguém, amasse forte e delicadamente, sem receios sobre o outro. Talvez fizesse carinho, carrinhos pras crianças, pulasse da ponte direto no mar, dormisse na praia, dissesse em alto e bom tom o que tenho há tanto tempo enterrado nas minhas entranhas, o que me sufoca de um jeito tão indolor que só machuco os outros. Talvez assumisse que me importo demais ou não me importo mesmo. Talvez gritasse. Talvez corresse. Talvez mentisse ou dissesse toda a verdade. Quem sabe, até arriscasse, declarasse, assumisse. Talvez me permitisse a jogar meu coração por ai, minhas palavras mais desajustadas e sinceras. Talvez não chorasse nada ou o dia inteiro. Talvez ficasse, mesmo sem saber o que fazer. Minha solidão acostumada talvez mudasse de rumo e tomasse o seu, ao menos por um dia.

Não, eu não pediria desculpas, iria correndo mudar tudo de lugar, fazer tudo de novo ou novo.

O que você faria? O que diria?

— Talvez possamos ficar sozinhas juntas.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Intercalados


Tudo o que traçava aquela menina tinha um ar de cansaço, uma fadiga que cobria todas as bordas do mundo ao mesmo tempo em que todas as chagas desse mundo a cobriam por inteiro. O que mais me chamava atenção eram os olhos, sempre os olhos, o olhar, mas aqueles nem eram de ressaca nem de fumaça, pois fugiam a qualquer definição de bela moça dos encantos extravasados, ela tinha em si, e somente para si, seus encantos, e estava mais pra moça encantada dos contos de fada, mas num transe que talvez nunca despertasse com o beijo do príncipe.

Aos poucos, fui me aproximando, feito gato faceiro, feito amor manso, inventando qualquer conversa sem graça (ô desgraça!), contornando aqueles traços com outras cores, provocando coincidências, ou simplesmente as trazendo à tona. Numa noite dessas, pude contê-la por mais de um sorriso numa brincadeira, passamos algum tempo juntos, pude tê-la por perto pelo espaço de dois segundos. Ela sorria tímida, compartilhamos alguns dons falhos, desenhos borrados, flores inventadas, surpreendeu-se com alguns segredos que eu contava, furados, e eu senti ali como se estivesse vivendo pela primeira vez um sentimento ingênuo de quem se encontra no ápice de um desabrochar para a vida, num amanhecer ou num entardecer, onde tudo é começo encantado, pois tudo nela me levava a isso, à inocência, ou ao cinismo. Ela era segredo, um segredo sem malícia ou talvez sonso, não importava, eu gostava daquilo.

Os dias passavam e nós pelos corredores, em alguns poucos encontros ou esbarrões. Ela, secreta, e eu um baú aberto, pronto para desvendar qualquer atração, queria mantê-la em mim. Algumas vezes me fazia palhaço, mágico, malabarista, outras vezes apenas um bêbado a chamar atenção, equilibrista. Queria estar rodeado por ela, por todo aquele cansaço, por todos aqueles segredos, imaginando o dia em que aos poucos eles transbordariam nossas noites através de uma fala tão mansa que me adormeceria também.

terça-feira, 29 de março de 2011

Canta, agricultor!

Ontem no ônibus
um agricultor vindo do sertão
com seu triângulo nas mãos
cantarolava as secas, as chuvas,
os sapos e percevejos, a agricultura,
a vida urbana
e o povo sertanejo...
Umas pessoas tiraram os fones do ouvido,
outras colocaram,
enquanto ainda ecoavam suas palavras:
- Papai, venha me buscar de volta pro sertão,
porque aqui na cidade o povo não se importa não.
Depois ele pediu alguns centavos,
sentou-se, abriu a janela e lavou as mãos,
aproveitando a pouca água que caia
em pleno meio-dia de uma segunda-feira
na cidade de Fortaleza.

Ruídos

 
E de tanto olhar ela se foi, porque de tanto só olhar contive minhas mãos, não soube agarrá-la de uma só vez, prendê-la entre meus dedos e dizer "nunca vá embora!", e ela se foi. Tive o gosto em minha boca, até em meu corpo, mas em minhas mãos não a tive, nunca, por pura covardia, minha ou dela, vai saber, ou traduzir. Se foi sem ao menos sentir o gostinho gostoso e egoísta de dizê-la minha, anda por ai noutras mãos e braços, sendo doutros, outra, estando noutra, ainda que por mim inteira, toda, pois sei que ainda a tenho, apesar de não ser nenhum pouco minha, nem sido um dia, apenas naquele dia, se foi. Vejo por ai passando, intocável, e por mágoa ou raiva privo meus toques e olhares. Vejo por aqui o que poderia ter sido e não foi, nem queria, ou era tudo o que tinha e não tive cuidado, que perdi e por culpa reneguei o que sempre quis, disse não importa, nunca quis. Vejo passar, parar, voltar, ao longe, me vejo partindo sem ir, deixando sem ter, perdendo sem achar. Partido, deixado e perdido. Talvez me esqueça ao atravessar numa esquina de braços dados com outro ou durante um cinema, um filme clichê, talvez me esqueça bebendo um café ou num papo com qualquer desconhecido. Talvez, ou quem sabe, ou talvez nem nada ou tudo. Me confundo ao vê-la de canto de olho, ela é confusão, total incoerência, desconjuntada, que me desconfigura só com o andar, ou com a aliança, com o vestido, ou com o salto alto, com a majestade, ou com a imaturidade, pois é criança, mas também mulher, minha e doutro. Um dia me falou das nossas canções, dos nossos descompassos, dos poréns, e eu, que nunca soube bem o que dizer, só ouvi, morrendo de vontade de dizer que... Não havia como dizer nem como ouvir, pois era encanto o que sentia, era cama o que faltava, era cheiro impregnado que me tampava e tapava tudo o mais. Ah mulher, como me escapou, se foi assim e deu tuas mãos a outras mãos?  Te dei tão fácil, ou sequer foi um dia minha? Dei, daria, talvez nem há esse tal de "ser minha", apesar de contigo a toda hora haver o "estar minha", mas, sim, me faço agente executor deste descuido, descaso, me ponho em total primeira pessoa, te jogando pelos cantos, me pondo pelos meios e fins. Enfim, foi-se, desritmou-se qualquer canção, súbito, bem no ápice do refrão, você sabe qual.

segunda-feira, 28 de março de 2011

"Onde estão as pessoas interessantes?"

Não sei mais o que fazer das minhas noites durante a semana. Em relação aos finais de semana já desisti faz tempo: noites povoadas por pessoas com metade da minha idade e do meu bom senso. Nada contra adolescentes, muitos deles até são mais interessantes e vividos do que eu, mas to falando dos “fabricação em série”. Tô fora de dançar os hits das rádios e ter meu braço ou cabelo puxado por um garoto que fala tipo assim, gata, iradíssimo, tia. Tinha me decidido a banir a palavra “balada” da minha vida e só sair de casa para jantar, ir ao cinema ou talvez um ou outro barzinho cult desses que tem aberto aos montes em bequinhos charmosos. Mas a verdade é que por mais que eu ame minhas amigas, a boa música e um bom filme, meus hormônios começaram a sentir falta de uma boa barba pra se esfregar. Já tentei paquerar em cafés e livrarias, não deu muito certo, as pessoas olham sempre pra mim com aquela cara de “tô no meu mundo, fique no seu”. Tentei aquelas festinhas que amigos fazem e que sempre te animam a pensar “se são meus amigos, logo, devem ter amigos interessantes”. Infelizmente essas festinhas são cheias de casais e um ou outro esquisito desesperado pra achar alguém só porque os amigos estão todos acompanhados. Tô fora de gente desesperada, ainda que eu seja quase uma. Baladas playbas com garotas prontas para um casamento e rapazes que exibem a chave do Audi tô mais do que fora, baladas playbas com garotas praianas hippye-chique que falam com voz entre o fresco e o nasalado (elas misturam o desejo de serem meigas com o desejo de serem manos com o desejo de serem patos) e rapazes garoto propaganda Adidas com cabelinho playmobil também tô fora. O que sobra então? Barzinhos de MPB? Nem pensar. Até gosto da música, mas rapazes que fogem do trânsito para bares abarrotados, bebem discutindo a melhor bunda da firma e depois choram “tristeza não tem fim, felicidade sim” no ombro do amigo, têm grandes chances de ser aquele tipo que se acha super descolado só porque tirou a gravata e que fala tudo metade em inglês ao estilo “quero te levar pra casa, how does it sounds?” Foi então que descobri os muquifos eletrônicos alternativos, para dançar são uma maravilha, mas ainda que eu não seja preconceituosa com esse tipo, não estou a fim de beijar bissexuais sebosos, drogados e com brinco pelo corpo todo. Tô procurando o pai dos meus filhos, não uma transa bizarra. Minha mais recente descoberta foram as baladinhas também alternativas de rock. Gente mais velha, mais bacana, roupas bacanas, jeito de falar bacana, estilo bacana, papo bacana… gente tão bacana que se basta e não acha ninguém bacana. Na praia quem é interessante, além de se isolar, acorda cedo, aí fica aquela sensação (verdadeira) de que só os idiotas vão à praia e às baladinhas praianas. Orkut, MSN, chats… me pergunto onde foi parar a única coisa que realmente importa e é de verdade nessa vida: a tal da química. Mas então onde Meu Deus? Onde vou encontrar gente interessante? O tempo está passando, meus ex já estão quase todos casados, minhas amigas já estão quase todas pensando no nome do bebê,… e eu? Até quando vou continuar achando todo mundo idiota demais pra mim e me sentindo a mais idiota de todos? Foi então que eu descobri. Ele está exatamente no mesmo lugar que eu agora, pensando as mesmas coisas, com preguiça de ir nos mesmos lugares furados e ver gente boba, com a mesma dúvida entre arriscar mais uma vez e voltar pra casa vazio ou continuar embaixo do edredon lendo mais algumas páginas do seu mundo perfeito. A verdade é que as pessoas de verdade estão em casa. Não é triste pensar que quanto mais interessante uma pessoa é, menor a chance de você vê-la andando por aí?

Texto de Tati Bernardi

sexta-feira, 11 de março de 2011

Abismo horizontal

Você vai e me busca entre os meus lençóis antes de partir, depois volta, me revira, revista, e tão fácil me põe de lado, porque me ponho fácil pra ti. Os dias vão sem conversa, sem carinhos, sem contatos, se constroem caminhos contornados por relógios e bússolas divergentes, e eu me faço sem sentidos por ai pra não perceber essa ausência que o abismo horizontal do nosso amor refaz toda noite, e também me calo, aos berros, junto ao teu silêncio, tentando manter ainda qualquer cumplicidade. E você vai, e você volta, e a gente fica nessa náusea que é o não saber, não querer saber, não precisar saber, a ignorância, o ignorar. Mas eu quero e preciso, pois não sei. É que nessa dormência sinto meu eu se dissipando, se tornando um corpo cada vez mais corpo, uma dureza frágil que ninguém mais ousa tocar a evitar que alguém se machuque. Às vezes vejo nossas promessas vagando pelos ares, evaporando depois de cada tempestade pouca, e me pergunto o por que de tanto vir se você simplesmente não chega, porque depois de tanto eu ficar te desapresso. Não há mais o talvez, o se, o sim, o não, culpa nem desculpa, há somente o vazio do desencontro de duas vozes que calam e do encontro dos beijos antes das tuas partidas e o comodismo que é manter essa porta entreaberta.

quarta-feira, 9 de março de 2011