sexta-feira, 24 de abril de 2026

O velho

Todas as noites, ele esperava que ela voltasse e, pela manhã, ao acordar, olhava para o lado, esperando que ela estivesse ali, deitada, num sonho só dela. Pelas ruas, esperava encontrá-la numa esquina qualquer. Pela vida, esperava que se tivesse tempo, bem lá no fundo, essa espera ainda fosse real.

sábado, 1 de novembro de 2025

Cela

De tudo o que já me foi detido

Corpo, mente, espírito...

Torço e doso em miligramas 

Por algo que ainda sobra e é livre em delírio.

sexta-feira, 27 de junho de 2025

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Partidas

A casa vai ficando maior 
Mais limpa 
Ímpia e só. 
As portas estagnadas 
E um chão que silencia: 
Há menos passos 
Curtos sussurros 
E caixas paradas. 
O jardim florece 
É a solidão que desabrocha ali.

domingo, 30 de junho de 2024

Empolgação

Um corpo apático
E óbvio
Como quem já viveu
Muito
De muita coisa
E agora em ócio
Repousa.

domingo, 24 de setembro de 2023

Aqueles olhos

M.

No mesmo lugar
Parada
Como nunca, como sempre
Agora vendo sob tuas íris 
Novas paradas
De novas partidas
Pelos mesmos caminhos
Mas com outros andares
Desassossegada
Espero a chegada
Lá onde sempre estivemos.

domingo, 17 de setembro de 2023

O muro

        Eu sentia que precisava subir naquele muro por algo que havia ainda de saber do lado de cá. Deitada na cama à noite, sempre ouvia o vento e as fagulhas de areia que pintavam no telhado, e pensava: o que haverá no lado de lá? Num dia qualquer, em desgraça ou benção, de sol a pino e pinga na mão, tomei coragem, um gole e um impulso: me escalei. Lá estava, paisagem à toa, sem eira nem beira, como quem diz: é, há quem queira! Mirei alguns instantes, como quem tenta dar valor ao que já fora tão estimado, mas não vi sequer cor naquele mato que, há poucos dias, havia incendiado. Ao tentar descer do muro, uma perna afrontou a outra e quase fui abaixo; joguei o corpo antes e dei de cara no chão: me estrepei. Apesar desses pesares, a vista valeu a pena e cada arranhão marcou a certeza de que nunca mais na vida haveria de encarar subida nem encanto que viesse por curiosidade.

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Céu

Como um pássaro 
que pousa no canto da calçada
ao acaso 
e encontra algumas migalhas 
espalhadas pelo chão. 
Depois de um tempo 
vê uma mão estendida ao vento
pedaços de pão, 
colhendo qualquer ave 
que ali chegue mais perto. 
O pássaro, livre, 
se ilude com o alimento despedaçado, 
acostuma-se, 
volta no outro dia, 
e no outro dia, 
e no outro. 
Despercebido, prende-se. 
Assim é o teu amor, 
um corte ao que era instinto.
Assim eu era pássaro.

Andarilha

Coleciono chaveiros

De viagens 

Que nunca fiz.

terça-feira, 22 de agosto de 2023

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

A ver navios

Mirei tua boca 
Na intenção de beijá-la 
Brevemente 
Depois fui embora 
Como quem parte 
Sem nunca ter chegado.

sexta-feira, 7 de julho de 2023

O eterno retorno

        Ao entrar em conflito comigo mesma por simplesmente perceber que estava me encantando novamente por alguém, percebi o quanto ainda tinha de voltar os poucos passos que havia dado e avaliar o universo de intemperanças que ainda me rodeava, pois insistir nesse caminho seria vil com mais pessoas do que há de se imaginar. Sair de um isolamento imaginário embebedado em mal-estar para cumprir metas sociais que colocam em maus lençóis quem de algum modo vive em desconexão com esses encargos é arriscar entrar em isolamentos coletivos. Talvez o tempo certo de viver seja apenas uma dimensão em que haja, de fato, vida a ser vivida, em que se é sentido o renascimento do espírito, quando a alma não se suporta mais no corpo. Não é matéria, não é medida de relógio, não é linear nem constante. Não se esmaga o encanto com desencantos por si mesma; se toma por inspiração e expiração: conflitos não se resolvem com pressa nem com falta de delicadeza. É espera. E eu espero saber sempre o que não quero pra mim: me perder por não me encontrar nos meus próprios sentimentalismos.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Semântico

Vez por outra, na estrada que passa ali,
O barulho dos carros mais parece mar
Como o meu sentimento, que era tão livre
E não conseguiu te libertar.

sábado, 18 de março de 2023

A borda

        Lá dentre os anos da minha infância beirando uma juventude ainda muito branda, na aula de natação, onde eu acabara de entrar pra turma "grande", da piscina semiolímpica, tenho essa recordação dos quinze minutinhos depois das aulas que podíamos aproveitar o tempo pro que desse e viesse. Os que tinham turma, iam de turma, entre pulos, mergulhos tortos e acrobacias. Os que tinham pressa, chuveiro e toalha. Havia também os que tinham resistência e continuavam as sequências de nados e desafios inventados. Eu, ainda muito nova e pequena em comparação aos outros, não fazia muita coisa, além de brincadeiras aleatórias como cambalhotas debaixo d'água pra ver até onde a respiração, ou falta dela, aguentava.

        Ainda bem no início das aulas na piscina grande, ainda espantada com o tamanho dela e dos outros alunos, usei esse tempo livre pra contornar a piscina segurando numa borda interna que percorria por toda a sua extensão. A parte mais rasa me cobria por inteiro por alguns palmos ainda. E a mais funda? Era essa a grande curiosidade. Bom, já havia escurecido aquela altura quando fui chegando no ponto onde não dava mais pra diferenciar as divisões entre os ladrilhos e me soltei, soltando também o ar pra que a descida fosse certa e eu chegasse lá. Eu via a superfície se distanciando, mas mesmo assim não olhava pra baixo. Era como uma queda invertida, indo no sentido certo. Lembro-me de pensar: e agora? Não havia ninguém por perto e eu continuava descendo. E antes de chegar a lugar nenhum, já sem fôlego e sentindo muita pressão nos ouvidos, resolvi nadar de volta, de um nado que ainda nem era tão bom assim. Voltando à superfície e retomando o ar, dei-me conta de que poderia ter morrido e talvez não tão cedo fosse encontrada, ou caso socorrida, fosse tarde demais.

        A sensação imediata, no início, foi engasgante. Depois, vieram umas vozinhas de consciência e repreensão por ter feito aquilo, por não ter ido com ninguém ou sequer falado nada nem antes nem depois. Teriam sido recordações bem ruins se dias depois e por tantas vezes eu não tivesse feito de novo e de novo até conseguir. Em todos os tempos livres, mesmo sem fôlego, e sempre com aquela pressão no ouvido, simplesmente tocar o fundo mais fundo daquela piscina sem quase nunca precisar olhar pra baixo e ver o quanto ainda faltava de chão foi um dos mais singulares sentimentos que tive. Às vezes, agora perto dos meus 40, me pego angustiando o corpo, que segue inerte depois que tomamos conta de que manter a respiração contínua é bem necessário nessa vida, e ansiando por uma piscina bem funda. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Lá foi a primeira

        Existiu um tempo de alegrias imensas, mas também de choros angustiantes. Era tempo de vida. Deixei lá, bem guardado, junto comigo; eu lá. Aqui só estou e tenho estado por tempo demais. Aqui, só dó. Lá estão músicas, livros, risos, gírias, roupas, chinelos, filmes, agendas telefônicas e diários. Existia um tempo de mim e dos outros, delas, deles; de nós. Dos segredos, dos costumes, das noites, das manhãs. Das tardes que se confundiam com tudo isso, cortando o céu e as mentes. Das filosofias e dos cinismos. Dos vinhos e das cervejas. Era um tempo de olhares e queixas, mas sem deixas. Ninguém precisava conjugar nada lá onde sou. Lá onde sou, todos somos, e há alegria imersa e choro profundo. E, vez em quando, posso ouvir esse tempo, mesmo solo.

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Subserviência

Há quem se crie para servir
Há quem se instrua para se servir
Há quem se negligencie para ser servido.
E eu, que nunca coube nos extremos, continuo aprendendo.

domingo, 29 de agosto de 2021

"Eu me sei"

Já não me interessa
me destruir para existir
me culpar pelas solidões que grudaram em meus ombros e que me fizeram ter essa postura de quem já sentiu mais do que devia já não me interessa adornar a dor preparar um altar para louvar os meus traumas prefiro não consagrar todas as vezes que me partiram ao meio prefiro soprar nos meus ouvidos que embora não saiba bem o caminho para voltar a ser inteira eu estou retornando a mim mesma já não me interessa ficar ao lado de quem esquece que eu estive lá que quando a fé tombou eu estive lá eu não posso conviver com quem me obriga a esfregar as mãos com o óbvio todas as manhãs já não me interessa explicar que quem tem caminhos abertos não diz isso o tempo todo porque já sabe contemplar o silêncio da certeza de ser guiada eu sou carne banhada de sagrado porque mereço já não me interessa desviar de espelhos provar vivências admirar abismos jogar com a minha cabeça pra ver até onde aguento meu orgulho não é contabilizar as cicatrizes sigo lutando para mantê-las fechadas se for entrar aqui venha de pés descalços preciso sentir a energia pra ver se confio meu feitiço é meu sentido
já não me interessa
ficar rouca tentando explicar qualquer coisa eu me sei, eu me sei, eu me sei agora eu me ocupo adentrando minha coragem resgatando meus poderes deixando minhas asas respirarem.

Texto de Rayane Leão
@ondejazzmeucoração

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Era pra queimar depois de escrever

Chegam os finais de semana e eu sempre me sinto sozinha. Sozinha, mas não solitária. Estar sozinha, somente comigo mesma, eu, meus pensamentos e assombrações. E por falar nelas, é preciso me livrar desses novos passados que seguem me atormentando noite após noite e que hoje me vêm muito mais em forma de reclusão.

Estão lá, cada palavra, cada tentativa de me rebaixar, de me enlouquecer diante do outro, de me diminuir para, enfim, me dominar, cada pancada que eu segurei com a frieza que, por graças, conseguia manter acesa e pra me defender: a única armadura contra o seu ódio por tudo e por todos: ser vazio e vazia. Eu não conseguia mais chorar de tanta tristeza, nem sorrir com os olhos; já não dormia à noite, já não queria viver meus dias. Só seguia o fluxo dos dias que, em alguns momentos, eu conseguia ter sob meu controle, mesmo com você tentando inundar tudo e me afogar na sua cólera condensada em veneno e mentiras. Não, eu não me mataria nem recairia num poço que tem lá até dedicatórias, como era de sua vontade sórdida.

Eu não tinha medo de você, tinha medo de mim, de tudo o que se passava pela minha cabeça em todas as vezes que você começava a rosnar e cuspir o mais intragável fel misturado a fumaça do cigarro. Até minhas reações estavam em jogo, na tentativa de serem controladas por alguém tão amador. E você queria a todo custo se cobrir com o manto do vitimismo e me apontar como o ser que você sempre tentou pintar por aí, à tua imagem e semelhança; teu espelho era inverso. Aquele olhar vazio e cheio de ódio me tirava qualquer paz de pensamento, a me prender numa repetição a marteladas: como poderia existir pessoa tão cheia de abismos dentro de si?

A ilusão de achar que eu ainda decidia sobre minha vida me fez protelar e acreditar que, um dia, tudo passaria e se ajeitaria do jeito que deveria ser. O problema é que o que deveria ser, de fato, era. A ficha não caia. Mas o meu pedido de socorro foi tão imerso em mim mesma, que de uma faísca, veio junto tudo o que havia sido enterrado e abafado durante esses anos. E sair da escuridão me fez reenxergar a vida e tudo o que ela sempre me prometera: não era mesmo ficar num porão imundo à mercê do que eu precisava crer pra não cair em declínio total, sem mais voltas, sem outras chances. Eu tinha forças ainda, e eram bem maiores do que ontem, seriam sempre maiores amanhã. Forças internas e externas. As minhas. As dos meus.

Então você foi arrancada como um band-aid que sai de uma ferida curada, sem dores. Eu não estava nas minhas mãos, mas, agora, também não estou nas suas. E isso me abre qualquer possibilidade de vida, nem que seja para escolher entre ficar simplesmente sozinha, aos finais de semana ou em qualquer outro dia. O vazio dessa casa nunca me preencheu de tanta paz. E hoje eu entendo a diferença entre solitude e solidão.

E pensar que, um dia, eu deixei que você questionasse até a minha escrita.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Variações de uma mente sã

adormecer para o mundo
explorar todo o mundo
esconder-se do mundo
doar-se pelo mundo
ganhar o mundo
explodir no mundo
perecer com o mundo

E no oitavo dia, descansar.