domingo, 29 de agosto de 2021

"Eu me sei"

Já não me interessa
me destruir para existir
me culpar pelas solidões que grudaram em meus ombros e que me fizeram ter essa postura de quem já sentiu mais do que devia já não me interessa adornar a dor preparar um altar para louvar os meus traumas prefiro não consagrar todas as vezes que me partiram ao meio prefiro soprar nos meus ouvidos que embora não saiba bem o caminho para voltar a ser inteira eu estou retornando a mim mesma já não me interessa ficar ao lado de quem esquece que eu estive lá que quando a fé tombou eu estive lá eu não posso conviver com quem me obriga a esfregar as mãos com o óbvio todas as manhãs já não me interessa explicar que quem tem caminhos abertos não diz isso o tempo todo porque já sabe contemplar o silêncio da certeza de ser guiada eu sou carne banhada de sagrado porque mereço já não me interessa desviar de espelhos provar vivências admirar abismos jogar com a minha cabeça pra ver até onde aguento meu orgulho não é contabilizar as cicatrizes sigo lutando para mantê-las fechadas se for entrar aqui venha de pés descalços preciso sentir a energia pra ver se confio meu feitiço é meu sentido
já não me interessa
ficar rouca tentando explicar qualquer coisa eu me sei, eu me sei, eu me sei agora eu me ocupo adentrando minha coragem resgatando meus poderes deixando minhas asas respirarem.

Texto de Rayane Leão
@ondejazzmeucoração

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Era pra queimar depois de escrever

Chegam os finais de semana e eu sempre me sinto sozinha. Sozinha, mas não solitária. Estar sozinha, somente comigo mesma, eu, meus pensamentos e assombrações. E por falar nelas, é preciso me livrar desses novos passados que seguem me atormentando noite após noite e que hoje me vêm muito mais em forma de reclusão.

Estão lá, cada palavra, cada tentativa de me rebaixar, de me enlouquecer diante do outro, de me diminuir para, enfim, me dominar, cada pancada que eu segurei com a frieza que, por graças, conseguia manter acesa e pra me defender: a única armadura contra o seu ódio por tudo e por todos: ser vazio e vazia. Eu não conseguia mais chorar de tanta tristeza, nem sorrir com os olhos; já não dormia à noite, já não queria viver meus dias. Só seguia o fluxo dos dias que, em alguns momentos, eu conseguia ter sob meu controle, mesmo com você tentando inundar tudo e me afogar na sua cólera condensada em veneno e mentiras. Não, eu não me mataria nem recairia num poço que tem lá até dedicatórias, como era de sua vontade sórdida.

Eu não tinha medo de você, tinha medo de mim, de tudo o que se passava pela minha cabeça em todas as vezes que você começava a rosnar e cuspir o mais intragável fel misturado a fumaça do cigarro. Até minhas reações estavam em jogo, na tentativa de serem controladas por alguém tão amador. E você queria a todo custo se cobrir com o manto do vitimismo e me apontar como o ser que você sempre tentou pintar por aí, à tua imagem e semelhança; teu espelho era inverso. Aquele olhar vazio e cheio de ódio me tirava qualquer paz de pensamento, a me prender numa repetição a marteladas: como poderia existir pessoa tão cheia de abismos dentro de si?

A ilusão de achar que eu ainda decidia sobre minha vida me fez protelar e acreditar que, um dia, tudo passaria e se ajeitaria do jeito que deveria ser. O problema é que o que deveria ser, de fato, era. A ficha não caia. Mas o meu pedido de socorro foi tão imerso em mim mesma, que de uma faísca, veio junto tudo o que havia sido enterrado e abafado durante esses anos. E sair da escuridão me fez reenxergar a vida e tudo o que ela sempre me prometera: não era mesmo ficar num porão imundo à mercê do que eu precisava crer pra não cair em declínio total, sem mais voltas, sem outras chances. Eu tinha forças ainda, e eram bem maiores do que ontem, seriam sempre maiores amanhã. Forças internas e externas. As minhas. As dos meus.

Então você foi arrancada como um band-aid que sai de uma ferida curada, sem dores. Eu não estava nas minhas mãos, mas, agora, também não estou nas suas. E isso me abre qualquer possibilidade de vida, nem que seja para escolher entre ficar simplesmente sozinha, aos finais de semana ou em qualquer outro dia. O vazio dessa casa nunca me preencheu de tanta paz. E hoje eu entendo a diferença entre solitude e solidão.

E pensar que, um dia, eu deixei que você questionasse até a minha escrita.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Variações de uma mente sã

adormecer para o mundo
explorar todo o mundo
esconder-se do mundo
doar-se pelo mundo
ganhar o mundo
explodir no mundo
perecer com o mundo

E no oitavo dia, descansar.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Bulinas

Perdendo a dor, a angústia, o desespero
A negação e a agonia
O pretexto
Aquele ser, o único que te satisfazia
A essência, o nada
A paciência da apatia
Quando somos a tal lata
A convivência do querer
Da sombra da falta de empatia...
É que vem aquilo que nada nos consulta
A certeza de que nada dói
O desespero que se nega
A mistura que se aceita
E comum se receita
Para além de tudo o que se insulta. 


quinta-feira, 10 de março de 2016

Mud'alma

Às vésperas de mais uma mudança, fico aqui pensando nessa facilidade que eu tô tendo de me desenraizar dos espaços; antes, eu achava que seria difícil colocar tudo numa caixa e vivenciar a vida entre quatro outras paredes, sem nem uma alma minha, agora, chego a nem tirar todas as coisas das caixas, chego a nem perceber as paredes, nem a pensar duas vezes antes de me deslocar mais uma vez. A qualquer momento, pode ser outro corpo noutro lar. Em menos de um ano, aprendi a me desapegar de tudo aquilo que estive agarrada desde sempre, por uma vida ou alguns minutos. - Essa casa nunca foi minha, o coração é que me faz moradia - e vai. Também achei que sentiria mais dó daquilo que pudesse ser perdido, mas  o que vai se perdendo, e muita coisa vai se perdendo, não se perde, não se sente. Quando a gente se muda, tudo na gente muda também, inclusive os apegos.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Sem continuação

Quis se desesperar pelos últimos acontecimentos trágicos afetivos naufragantes em que se metera, pra variar. Outra vez, aquele mesmo dar-sem-receber, o ter cuidado sem ser cuidado, mas então lhe veio um torpedo à mente como quem dá um tapa na cara depois de puxar a ponta da orelha: ora, pra quem deixou vinte anos pra trás sem sequer buscar rastros do caminho de volta, o que seriam aqueles poucos meses e minutos que não lhe desenharam nem uma risca no chão que vinha pisando na ponta dos pés? Nem atalho, nem ponte, nem travessia nenhuma, só um corte numa estrada que ainda nem começara a ser pavimentada. Pegou o primeiro livro que viu pela frente, colocou na cabeceira, ligou o rádio e dormiu. Pensava que era amor, mas era cansaço.

domingo, 19 de julho de 2015

Despedida

Enfim, tô de partida, indo ali aspirar outros ares. Então será isso. Parto sem pesos nem pesares. Já tá tudo encaixotado, quer dizer, quase tudo, alguns sentimentos deixei de fora mesmo, que se dissipem em meio a essa cidade caótica que abateu meu coração, tragou meus pulmões, mijou nos meus rins, bebeu meu fígado e “insanizou” meu cérebro. Vou lá pra dita calmaria do vácuo de uma cidade pequena, buscar grandezas que nunca encontrei por aqui. A casa lá será nossa, se aprochegue quando quiser, mas não esqueça: eu serei sempre só minha. É pertinho, sem drama nem demora. Aliás, a única distância real é o esquecimento prolongado. Então trate de continuar me lembrando das coisas que eu sempre venho esquecendo, te lembrarei também. E não deixe que a saudade te ludibrie, não deixarei, é só manter o copo cheio e a noite acesa. Parto leve, mudei.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

O primo

Eu pensei que tivesse sido a única, uniquinha no mundo que já tinha sofrido por amor a duras penas, patos, pistas, pilhas, postes e as putas que pariram. Pensei que já não tinha sofrido o bastante, quando já tinha, e que não tinha mais nada por vir, quando ainda vinha. Até que ele parou na minha frente. Esfarrapado, sujo, andarilho talvez, desistente, certeza, parado ali, olhando pra mim, e eu achando que tudo era demais pra mim, mesmo que o tudo demais pra ele, mesmo sendo tudo demais, nunca chegaria aos pés dos meus tudos. Aí eu comecei a julgar, antes de acenar. Julguei a barba mal feita, o cabelo meio raspado, acidentado de um lado, assanhado do outro, as unhas imundas, os dentes amarelados, os pés sem rumo. Julguei até mesmo quando ele acenou de volta, pois foi meio sem prazer, sem questão, sem direção, sei lá. Mas aí ele aquietou-se num canto como que dizendo pra que eu sentasse ali e percebesse no silêncio dele tudo o que me deixava gritante, pois eu estava inquieta. Só eu tinha sofrido, perdido e adiado amores. Só em mim doía. Mas eu sentei. Estava tão cansada que sentei. Então ele começou a falar dos cinco anos, eu mal sabia o que isso significava, ele dizia cinco anos de destroços, de quedas, de merdas, de arrependimentos desviados e de futuros ainda por errar. Também disse que amara.

domingo, 21 de junho de 2015

O que fica

Começou quando fui atrás das caixas vazias pra juntar tudo o que tenho e levar comigo. Não foi simples, algumas coisas tive de colocar em sacolas; descobri que não é fácil encontrar caixas vazias. Fui abrindo meus armários e gavetas, resgatando tudo o que podia, quase não deixei nada pra trás, nem memória nem papel. Algumas lembranças vazaram, escorreram por entre a poeira e alguns objetos quebrados que iam se juntando no canto do quarto. Fui vendo anos e anos da minha vida sendo empacotados e preparados pra se fixarem num lugar totalmente desconhecido, nada resistia à mudança. Foi quando eu me vi guardando na mala uma camiseta que não reconhecia. O cheiro se misturava ao meu como se me pertencesse, mas não era minha. Era de um tamanho mediano, de uma cor que me agradava, o corte desencontrado, cabia perfeitamente em mim, mas não era minha. E eu não conseguia me lembrar de quem poderia ser ou ter sido a essa altura. De qualquer forma, resolvi guardar na mala. O caminhão da mudança, com todas as minhas coisas e intenções, havia partido antes de mim, e com tudo já encaminhado, rumo à casa nova, fui ao carro pensando apenas naquela camiseta, nos braços que já tivera vestido, no cheiro, nas dobras que já pudera ter tido, no percurso e na chegada que me precederia. Quando decidi partir, decidi por vontade e obrigação deixar tudo pra trás. Ilusão a minha. A única coisa que ficou pra trás nessa viagem toda foi a minha vontade de ir, deixando tudo o que pudesse, levando tudo o que podia. E tudo chegou antes de mim, inclusive a minha saudade que se confundia com uma camiseta, agora reconhecida: fora esquecida no canto da cama quando ela, ao acaso, veio parar na minha vida pela última vez. E se aquela ficou na cama, alguma minha foi com ela. Era ela. E no meu apego desenfreado, nessa mania de não querer deixar nada de lado, percebi que toda aquela mudança havia sido em vão. Então minha partida, que deveria ter sido uma despedida definitiva, acabou virando a história que começaria depois do ponto final: já nos primeiros passos, fechando a primeira porta, reservei a camiseta que não era minha, mas que me cabia perfeitamente, no lugar mais visível, como se esperasse por outra visita, que dessa vez não esquecesse mais nada, nem me tirasse.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O hostil

Adoro quando ele some. Não adoro, na verdade, odeio. Mas tiro disso algo legal porque vomito no papel o que vou jogar na cara dele. Eu ia dizer essa noite que realmente pra mim não dá certo, que eu já tentei de tudo, mas que não dá. Eu sou eu e nem eu mesma posso mudar. Me dói. Em todos os pontos me dói. E eu queria falar pra ele porque ele é meu amigo que me ouve e que me sente. Eu não sou. Não ser é difícil e a gente precisa de alguém por perto imediatamente quando percebe. Eu não sou. E dói. Dói ter tentado esse tempo todo ser. Mesmo tendo sido eu tentei ser. Aí eu não consegui. E tentei de novo. E me perguntaram “por que então”, “por que”. Eu nunca soube responder por que eu fazia, eu fazia, e ia, e tinha, e era, mesmo sem ser, porque eu tinha que ser. Tudo pedia que eu fosse. Enquanto eu obedeci, eles veneraram; eu era infeliz, e falsa. Quando passei a ser ausente e eu, tudo mudou, tudo caiu, menos eu. Eu fui feliz. Eu reconheci a vida. Em cada cara eu procurava um amor que nunca existiria. E doía mais em mim do que em quem eu diria isso. Mas eu tentei tanto. Que doeu.