terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Meu tempo

Eu teria te beijado se eu soubesse
Teria te dito que você era mais importante que aquele cinema
Teria te chamado pra sair como se você não tivesse sido a última opção
Teria te dito naquela hora que eu queria ter dito sim,
se eu não soubesse que seria tarde, breve, único.
Não sabia que só te teria ali, naquele momento
como sendo tudo o que conjugaria todos os meus tempos.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Aquariana


Sei o que te irrita
o que te faz gritar, xingar
sair do salto e do sério
Esse teu amor
sem querer
sem quê nem pra quê
Sei do teu jeito de negar
o que quer ser rasgado
Do teu beijo breve
a despedir-me
desesperado
E desse teu olhar
que não me diz pra ficar
torcendo pra que eu não vá embora.

sábado, 19 de outubro de 2013

Na calada da noite

Estou aqui esperando por você, como você não me pediu nem deu qualquer sinal de que era isso o que queria. Espero porque sei que, apesar de tudo, e de nada que você tem me dado ultimamente, era isso o que queria quando saiu pela porta depois de um breve beijo às pressas para o aeroporto. Não chamaria aquilo de despedida. Então, se você de alguma forma soubesse que não voltaria, não teria ido embora daquele jeito, não é? Simplesmente falamos sobre o que poderia acontecer e o que não queríamos que acontecesse, não nos prendemos, nos deixamos ir sem usar nenhuma desculpa fajuta. Hoje faz exatamente seis meses desde que nos falamos pela última vez, a única coisa que me lembro é de você ter dito o dia em que voltaria e que me encontraria naquele bar, num tom totalmente descompromissado. De certa forma, não levei nenhuma palavra em consideração, mas o fato de ter me lembrado disso dia após dia me fez estar aqui esta noite, sentada, estúpida e crente de que você irá aparecer, ou lembrar-se dessa promessa absurda. Você nunca fez promessas, e o mais perto disso que fazia, nunca cumpria. Às vezes me pergunto o que fiz durante todo esse tempo e o que faço aqui agora, sendo idiota o suficiente pra continuar acreditando na única pessoa que nunca fez questão de me falar a verdade. A verdade é que você também não fazia questão de mentir e essas quase promessas, eu mesma que inventava numa tentativa de me manter acreditando naquilo que você também não chamava de amor, não chamava de nada, aliás. Mas vivíamos, quase sempre, isso que nenhum de nós chamava de amor, e sobrevivemos anos e anos nisso que todo o resto dizia não ser amor, enquanto todo o resto amava e desavama quando bem lhe fosse conveniente, relacionamentos superfaturados e cheios de dívidas que nunca seriam pagas. Pois escolhemos ser amantes a definir o amor. Quando você desligou o telefone, seis meses se passaram, e ainda me sinto na sala pensando no quão burra eu seria se estivesse esta noite aqui, no mesmo bar e na mesma mesa. Estúpida, idiota e burra, pedindo outra dose de tequila, esperando que você não demore tanto a chegar, pois nunca foi de chegar na hora marcada, mas sempre na hora certa, torcendo para que venha mais uma vez, mesmo tarde da madrugada, para me levar para casa quando eu estiver bêbada, amaldiçoando os quatro cantos do mundo por mais uma vez ter acreditado no que eu queria acreditar: em tudo o que o seu silêncio sempre me disse.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Cardápio

Foi quando cheguei em casa mais cedo, logo depois do trabalho, nada de bar, ou pizzaria, ou padaria, ou restaurante, ou café, nada de livraria, nem biblioteca, nem cinema, nem casa de amigo. Vim direto pra casa, pois já não aguentava mais estar pensando tanto em você naquele dia, depois de tanto tempo, naquele dia em que você voltou ao meu pensamento simplesmente porque alguém que não era você entrou no mesmo ônibus, alguém que não era você também sentou na última cadeira, alguém que não era você desceu na mesma parada. Pedi sushi. Assisti a mais uns capítulos do seriado. Tomei café. Assisti a um filme. Fiz calabresa. Li um conto. Comi o último pedaço de torta. Liguei a TV. Pedi uma pizza. Coloquei Bethânia. Abri a primeira cerveja. Como alguém que não era você deve ter feito assim que chegou em casa com alguém que não era eu.

domingo, 15 de setembro de 2013

Pra viver como se fosse fins

Não quero ter a certeza da última vez
quero já ter vivido
e viver pensando nas possibilidades
daquilo que teria sido
se eu tivesse realmente vivido.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Amórbido

Tenho conseguido me virar bem sem você. Tenho até estado bem, já não encho os outros com meus lamentos, há tempos, apesar de ainda me pegar chorando sozinha. Talvez nem me escutem mais, ou talvez eu que não diga mais nada com nada mesmo. Os amores continuam passando por aqui, mas agora como fantasmas vigilantes à espera da minha, enfim, desistência e rendição. A verdade é que não morro mais por amor, que fiquem a me rondar e fazer companhia, mas não morro. Pois morrer é virar do avesso, é a certeza de nunca mais poder te tocar com as mãos da primeira vez, aquelas que se entrelaçaram, me deixando segura ao atravessar a rua, me querendo pulsante do outro lado, por quanto tempo, por onde fosse, e como desse. Vivendo por amor, cercada pelo que poderia ser, atormentada por fantasmas de possibilidades e pelo amor que um dia foi seu, tenho conseguido até me virar bem. Já não me incomoda você ter me virado as costas.

domingo, 1 de setembro de 2013

A idade do concreto

Não é a primeira vez que tentam invadir o Cocó com o argumento de trazer algum tipo de desenvolvimento para a cidade. Fico a pensar se desenvolver é isso: de árvore em árvore, enfim, se chegar a nada, além de chão seco, paredes firmes, tinta fresca e metais reluzentes. “Tudo isso por apenas algumas árvores. Tudo isso por causa de um viaduto. Não vejo esse escarcéu todo por outras causas. Estão sendo contra o desenvolvimento da cidade. Querem voltar à idade da pedra. Vagabundos! Vão trabalhar!” Eis algumas máximas vindas do lado de fora, de pensamentos cristalizados num sistema que nos molda anos a fio. Seria até de se compreender, não fosse a tamanha resistência a perceber outras realidades, outras formas de se construir uma sociedade. Muitas vezes nos prendemos às ideias apenas para comprovar nossa personalidade, moral, talvez “ética”, e nos agarramos a elas mais que tudo, nos fechando para os outros, para o espaço e direito dos outros. Fixe: esses outros não se resumem a nós, seres humanos, mas a tudo, a todos que compõem nossos solos, ares, águas e céus. Ao atravessar a entrada, destroçada pelos mandantes do desenvolvimento, mas aos poucos sendo colorida por instituições, entidades, indivíduos que percebem o mesmo que aqueles que ali ocupam e estão dispostos a defender o parque com unhas e dentes, e até com estômago, logo percebi: não são apenas árvores, não é só um viaduto, não são “vagabundos”. É uma causa, é um sentimento que não suporta mais a falta de sentimento reproduzida desde os tempos onde tempo é dinheiro. É um ideal que precisa cada vez mais ser reforçado, não apenas por sonho, utopia, mas por necessidade. Mudar as formas de se construir nossos espaços e nossas vidas é necessário. É preciso reconhecer-se enquanto ser vivo, enquanto parte de algo maior e, principalmente, enquanto único ser pensante responsável por esse algo e por tudo o que o constitui, mas que tem ido bastante contrário a isso. O incrível disso tudo é que algo tão simples e óbvio não consegue ultrapassar as barreiras sequer da visão de muitos, talvez por estarem acostumados a lidar com complexos sistemas mecânicos, sempre em busca de avançar, evoluir, progredir, desenvolver, como se quisessem preencher as falhas que ecoam entre os abismos cavados ao redor de cada um por anos e anos. Os poucos que tentam redefinir esses tons são tidos como loucos, transgressores, subversivos que vão de encontro às melhorias de nossa cidade. Melhorias?!... Talvez esteja na hora de “avançar, evoluir, progredir e desenvolver” de dentro pra fora, pois todos temos barreiras, mas podemos delas reconstruir pontes, praças, parques, e dai ver que a melhoria mais importante é ser gente de novo. Não é voltar a idade da pedra, é sair da idade do concreto.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Debaixo do peso de papel

Querido,

Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que é a você que eu devo toda minha felicidade. Você foi bom para mim, como ninguém poderia ter sido. Eu queria dizer isto – todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim, mas o que ficará é a certeza da sua bondade, sem igual. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos.

Texto de Virginia Woolf

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Vencida

Se tenho palavra?
Sim, a tenho
mas com prazo
e de validade
pois se conserva
qualquer verdade
azeda.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Apagaram tudo

"Aquelas plantas ali você derruba e depois pinta tudo de verde." Pois é assim, pintam, rabiscam, cobrem com lona, giz, carvão, pó, apagam. Em menos de 24 horas, veja bem, vinte e quatro horas, e a ciclofaixa voltou às origens, ao por vir, ao vai saber se vem; intervenção por vir? Tomara! Tentam a todo custo cegar o povo do próprio povo. O que o povo quer, dever querer, pode querer, precisa. Apagam toda e qualquer chama que possa incendiar a roupa de palhaço que veste nosso país. E ainda gastam nossa água! Pior que desse foguete às avessas só resta a fumaça a incomodar essa gente, a gente, e somente, que depois se volta, revolta, com os pulmões cheios de gás: "Não queima, que isso aqui é nosso também, porra!"; a seguir espalhando a cegueira, ajudando a cobrir de cinza as ciclofaixas, as pinturas nas praças, as praças, praias, casas, a gente. O que o povo quer?! Vai saber, não dão nem tempo dele querer! Do que o povo precisa? Com certeza não é uma cidade pintada de verde, nem de ciclovias pintadas com tinta d'água, nem de praças cinzas. Vinte e quatro horas. E eu me pergunto há quanto tempo aqueles números de campanha ali estão nos muros.