segunda-feira, 19 de novembro de 2012

As drogas da vida

Olhando por cima de já tantos passos dados, talvez possamos dizer de onde vem toda a lama nos pés dos viciados. Do cigarro? Do álcool? Da maconha? Da coca? Do crack? O que vem antes de tudo isso? A terra, o barro, o estrume. Morreu um jovem vítima do crack na semana passada. Seu pai, completamente desolado, começou uma campanha antidrogas. Logo na outra esquina acompanhamos os passos da marcha da maconha. O que vicia uma pessoa? O que mata uma pessoa? E a culpa é de quem? A culpa, cara, é da liberdade. A mesma liberdade que nos é tomada a partir do momento em que nascemos e, em vão, buscada até a nossa morte. Morte por crack, por tiro, por câncer, por ideal, por vida e por morte. O rapaz, um menino, vítima do crack, do pai, da sociedade e da liberdade reprimida. Uma droga e a sensação de uma falsa liberdade que intensa e constantemente lhe trouxe talvez o afeto por tantas vezes simples, mas negado, e só agora dado em doses altas e tardias sob a forma mascarada de uma transferência de culpa maior. Talvez. Ou talvez um afeto que não pode ser encontrado sob nenhuma outra forma, diferente de tudo o que lhe cercava e esmagava numa rotina imposta. Ou talvez uma escolha menos comum, e jamais aceitável, de simplesmente se viver uma vida colorida por cores mortas, que também são cores, a escolher. O diferente sempre foi espantoso até se tornar comum. Já somos privados e culpados pela vida incomum. Mas, então, a quem culparemos todas as mortes em comum? Podemos refletir antes sobre a culpa.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A primeira esperança morta

Autossabotagem foi tudo o que me sobrou. Young me faz companhia nessa noite de sexta onde tudo era pra ser o contrário. Dormi o dia inteiro, mas mesmo assim continuo na cama, insone, rejeitando convites, desligando celulares e apagando as luzes. Me disseram que tudo o que vinha de mim era lindo, me deram a felicidade de bandeja, me amaram como quem ama as estrelas, mas essa não era eu. O céu está vermelho essa noite. Somente a tristeza é um sentimento puro. A tristeza e o amor rejeitado. O que vem depois disso são fugas de quem acredita no sentido das coisas. As coisas não têm sentido. Eu não tenho sentido, o não sentir que é real, cheio de tudo. A minha sorte é o meu maior azar. Rejeito essa sorte, rejeito a mim mesma, toda felicidade que me vem dou como artificial, rejeito rosas, bombons e declarações, tiro sarro do que sou eu. Um dia eu quis o que não é a solidão, então descobri o superficial, como um peixe fora d’água. O mar, amar, o fundo do poço, a lama, o cru, a crueldade do que é verdadeiro e belo. Cuido do outro como não cuidaria de mim, mas não sou eu. Falo sobre isso, faço aquilo, o tempo todo me apontam contradições como quem descobre algo extraordinário, mas eu sou ordinária, assumo até o que não é meu pra poupar aproximações. Assumo canalhices, provoco marcas de batom, nego o que for decente. Não quero sutilezas. Sou dos absurdos mudos. Um concreto que protege pétalas murchas. O vazio que fica nas coisas mortas, uma herança de amor. Mas ainda espero que a campainha toque e revele tudo aquilo que é mentira por medo de ser verdade. Ainda espero que você apareça e me reconheça, e descubra o que tanto escondo do mundo desde que você foi embora. A loucura de ser sensível.

sábado, 8 de setembro de 2012

O sol de setembro

Saiu nos jornais que o sol de setembro estaria mais forte, que as pessoas evitassem os raios solares principalmente entre meio-dia e duas tarde e usassem bastante protetor. Mas como se evita raio solar? Ultimamente tenho sentido meu corpo quente, mais do que de costume, e não é febre. Até minhas mãos geladas estão suando. Acredito que talvez seja esse sol de setembro mesmo. Já à noite, aliás, bem no finzinho da tarde, na primeira brisa leve que anuncia o sol se pondo, sinto calafrios, meu corpo é tomado por um frio de inverno que nunca existiu de verdade aqui em Fortaleza. Um inverno que nunca vivenciei, mas sei que chega quase a ser do extremo sul. Dia e calor, frio e noite, como no deserto. Talvez seja esse sol de setembro impondo presença e ausência. Só que às vezes o clima em mim se inverte, se colocando à parte de toda a natureza externa, como se quisesse ser próprio de si, nem de mim nem do mundo, mas somente de si, assim como os sentimentos. E ai fica uma guerra de temperaturas, cada uma querendo assumir e impor sua identidade, cada uma querendo tomar a outra de vez, cada uma querendo ser mais eu, acima de mim. Como no deserto, às vezes oásis, às vezes miragem. Aqui fora e aqui dentro, querendo predominar e impregnar todos os espaços, aquecendo, bronzeando, queimando, assim como os sentimentos, sendo de alguma forma, estando presente ou ausente, esse sol de setembro.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A medida do inacabado

Gosto de café. Nunca gostei de chá, doce ou amargo, sempre me pareceu água quente suja com açúcar. Não, chá nunca me desceu, é quase um suco que parou no meio do caminho, ficando aguado, sem cor, sem graça e amornado pelo sol do meio-dia. O café já não me faz pensar em água nem açúcar nem sol nem amargura, só me faz pensar em café, algo que traz em si todas as dores e curas do mundo. Mas numa noite dessas, acompanhada pelos sons da cuíca, do bongô e do atabaque, a embriaguez já tomava conta de todos quando ela apareceu com limões, gelo e matte. Não cabia o nome chá naquela bebida, pois me apeteceu, assim como para ela não cabia um nome qualquer a ser esquecido no dia seguinte, já que levou minha atenção noite adentro e me roubou qualquer voz que ousasse dizer – mas não gosto de chá. Foi uma negação sutil que aceitou tudo o que viria a partir dali. Falamos de luas e ruas, ela me mostrou a leveza das madrugadas e a liberdade das indefinições e eu mostrei as cores dos beijos e o calor dos fins das tardes de sol. Nos permitimos à beleza e delicadeza do efêmero até onde os sentimentos se confundiram com rotina e, diferente do tempo que se arrastou até que nos encaixássemos, súbito nos separamos. Apesar de toda a leveza que colhemos em nossas noites que só acabavam quando dormíamos quase ao meio-dia do dia seguinte, o peso de um passado que nunca consegui deixar guardado numa caixa me puxou de volta para a realidade de um coração quebrado, essa que parece impregnar na alma e impor uma felicidade cheia de incompletudes, vazada, que se quebra mais e mais a cada vontade e ilusão de conserto, machucando a si e a todos os outros que estiverem por perto. A consciência insana disso e a incerteza de um sentimento latente e negado me levou pra longe dela e a receita de seu chá gelado, desmedido como ela, foi tudo o que me restou, a aliviar e energizar dias de sol ou de chuva. Às vezes me pergunto se algo meu também restou a ela, mas quando a vejo por ai e ainda me falta a voz, percebo que a única resposta que ainda posso ter é um abraço adocicado, forte e quente, agora amornado por outra pessoa.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

A menina dos braços de nuvem


Era um passarinho que gostava de gaiolas e de enfeitar o mundo afora. Um suspiro de amor, de sonhos e de melancolia. Uma nuvem. Era uma menina que traduzia qualquer sentimento num abraço.  Aqueles que a diziam antipática, não reconheceram a timidez e a insegurança em seus estados mais puros. Aqueles que a diziam frágil, nunca sentiram a força de uma flor. Aqueles que nunca experimentaram a sanidade e a diziam louca, não enxergaram os tons da liberdade. Aqueles que hoje a dizem “adeus”, será que um dia a ouviram dizer “olá” como eu?

quarta-feira, 11 de julho de 2012

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Amor de dois

E como se quisesse devolver a vida àquilo que só algum tempo depois sentiu que desfalecera em suas mãos, por descuido ou impossibilidade, eu disse: te amo. Eu sei, disse ela (mas esse amor não é o suficiente, não mais segura minha mão, apesar de agarrá-la quando preciso pra que eu não caia, não deseja um beijo de boa noite em todas as noites, não sonha em acordar ao meu lado em todas as manhãs, se contenta com o cochilo de uma tarde, não mais pensa em levar café na cama ou me levar pra jantar, tornou-se lanche, não brinda, é somente ressaca, não fica de pés descalços na praia nem brinca à beira da piscina, anda alheio aos avisos do mar, não viaja, não acampa, não repousa, é rotina, não lê mais versos soltos em páginas aleatórias, anuncia o jornal, não me abraça como se fosse tudo, envolve os braços como se fosse nada, não me convida pra sair, é delivery, não beija nem suspira, não ama apaixonado), também te amo.

sábado, 7 de julho de 2012

"Meu tempo não se mede em relógios"

"Eu também tive meu coração machucado. Me dei mal, meu bem, ninguém escapa. Mas o bom disso tudo é que agora consigo abrir meu coração sem rodeios. Sim, amei sem limites. Dei meu coração de bandeja. Sonhei com casinhas, jardins e filhos lindos correndo atrás de mim. Mas tudo está bem agora, eu digo: agora. Houve uma mudança de planos e eu me sinto incrivelmente leve e feliz. Descobri tantas coisas. Existe tanta coisa mais importante nessa vida que sofrer por amor. Que viver um amor. Tantos amigos. Tantos lugares. Tantas frases e livros e sentidos. Tantas pessoas novas. Indo. Vindo. Tenho só um mundo pela frente. E olhe pra ele. Olhe o mundo! É tão pequeno diante de tudo o que sinto. Sofrer dói. Dói e não é pouco. Mas faz um bem danado depois que passa. Descobri, ou melhor, aceitei: eu nunca vou esquecer o amor da minha vida. Nunca. Mas agora, com sua licença. Não dá mais para ocupar o mesmo espaço. Meu tempo não se mede em relógios. E a vida lá fora, me chama."

 Texto de Caio Fernando Abreu 

sábado, 23 de junho de 2012

"Uma chata cheia de manias"

Diante das contas de um rosário,
diante de um terço de pedras pretas.
Dizem que se rezarmos diariamente,
Maria nos assistirá na hora de nossa morte.
É tarde - nem tanto - e eu preciso de ideias.
De uma frase perfeita para justificar o verso.
Mas primeiro, tudo que eu sempre quis,
desde que me acordei de manhã cedo,
era mesmo um cigarro.
E dei para justificar um cigarro
com um copo de bebida
ou com um momento sem ideias.
Essa mania doida de ter que ter ideias.
Essa mania doida de pedra de crer que devo
cometer a grande frase.
Induzir sentimentos intensos.
Sou uma chata. Uma chata cheia de manias.
Ainda acredito conquistar corações,
ainda acredito que só sei conquistar corações
tendo ideias. Eu sou a rainha das ideias.
A "Miss Coração Solitário".
Que na verdade disfarça, teclando teclando,
com dedos que querem cigarros.

Fico bem de negro. É a minha cor.
Todo mundo deve ter uma.
Aquela que só se empresta a quem amamos.
Já quis ter, um dia, um vestido
de paralelepipedos esvoaçantes.
Agora que, enfim, estou fumando,
gostaria de um drinque e um xale
de contas de rosários

Sou mesmo uma chata
que adora desculpas do existir.
Mas, se quiser, lhe empresto agora
todo o meu negro. Aceita?

Poesia de Fernanda Young, 
em Dores do amor romântico.