sábado, 1 de março de 2014

Semifechado

Aos poucos pude perceber o que esteve diante de mim durante o tempo inteiro em que estivemos juntos, o mesmo que nos manteve distantes também. Eu não fazia parte daquilo. Em meio aos sorrisos, brindes, presentes, surpresas, brigas, sempre fui um estranho, um confortavelmente adequado estranho, tão adequado que nunca me senti à parte de tudo, nem ninguém mais ali. Só agora, alguns anos depois de termos nos deixado, que me percebo: uma espiral dentro de um círculo.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Primeira folha



Tudo começou a partir de uma interrogação. E de uma planta. Depois de muito tempo, Bárbara finalmente resolveu mudar os móveis de lugar. Como costumava quando criança, até fez um esboço antes de onde cada coisinha se encaixaria em seu espaço já não tão frequentado, agora sendo apenas lugar de repouso, ou de ressaca. Ao mover a mesinha de cabeceira, logo deu de cara com um caminho, uma longa estradinha de cupins, que dava direto ao guarda-roupa, onde, retirando de imediato as gavetas, havia uma comunidade inteira deles a corroer papéis velhos e sacolas, roupas e fotos antigas que ela guardava uma a uma como lembrança de algum momento que considerava especial em sua vida. O problema é que praticamente todos os momentos eram especiais, cada dia que passava, dentro ou fora de casa, lhe parecia uma memória a ser guardava em qualquer espaço vago que ainda sobrava em seu quarto. Lembranças que agora, dia após dia, estavam sendo devoradas pelos cupins. Algumas coisas, tomando mesmo o sentido mais abrangente de “coisa”, simplesmente não podem permanecer estáticas. Livros, fotografias, brinquedos, chaveiros, pessoas, sentimentos, deixando-os guardados em qualquer lugar, por mais seguro que seja, um dia correm o risco de serem tomados por pragas como essa, que pouco a pouco destruía cada memória de Bárbara. É preciso mudar os móveis de lugar, revirar as gavetas, tirar o mofo das roupas, em dias de chuva, principalmente. Muitas pessoas, assim como ela, acreditam que guardar as coisas num lugar seco basta para dá-las a eternidade que precisam. É uma pena que Bárbara não se lembrou dos cupins, quase perdeu a fotografia inteira de sua formatura. Essas pragas aparecem onde menos esperamos e, por vezes, veneno algum impede que voltem ao mesmo lugar. Bárbara perdeu duas gavetas inteiras, algumas roupas não perderam o tom, mas se guardaram cheias de pequenos buracos, já os papéis, esses não puderam evitar o lixo.
Alguns dias depois, e pulverizadas de dois ou três venenos indicados pela internet, os cupins pararam de se procriar aos arredores de seu quarto, salvo alguns poucos que partiram para o quarto vizinho, o que já não lhe cabia. Dali, decidiu também dar um jeito no banheiro, mais para jogar alguns utensílios fora, agora não tão úteis assim, como algumas escovas de dente ali deixadas, ou esquecidas. Bem num dos quatro cantos, sentiu falta de algo. Nunca havia lhe tomado tal sentimento, pois também há tempos não reparava naquele lugar. Não tendo conhecimento dessa falta, não soube o que fazer, simplesmente tomou banho e saiu, em cima da hora como quase sempre saia. A ideia era encontrar uma amiga num barzinho e partir para o shopping, o ano se iniciava e quase tudo estava em liquidação, não que fosse assim tão consumista, muito pelo contrário. Precisava de algumas coisas desde o ano anterior e esperou que as festas insanas de fim de ano passassem, pois tudo ficava mais pacífico e barato. O barzinho, porém, ficou para depois. Não aproveitou para comprar novos móveis, os seus ajeitaria ela mesma com um pouco de cola, prego e madeira. Passando pela floricultura, onde nunca antes sequer encarou por mais de cinco segundos, veio o estalo que precisava para aquele canto do banheiro. Sim, talvez alguma planta, não com flores, simplesmente planta, nem tão colorida, apenas as mais puras folhas verdes. Essa não encontrou ali, também não quis ir à outra floricultura, aproveitou a viagem e levou uma que estava também num canto não muito visível da lojinha. Nem sequer perguntou o nome. Decidira depois dos cupins não se apegar tanto a muitas coisas, além do momento em si e dos próximos que poderiam vir a partir deles. O que esperava depois daquela plantinha? Talvez mais vida num lugar tão estático, ou talvez logo folhas secas a negá-lo.
Ceiça estranhou a atitude da amiga: – Primeiro entra numa floricultura e agora compra uma planta! Me diz, o que te aconteceu de ontem pra hoje? –, e encarou até que viesse uma resposta, mas antes de qualquer balbucio da amiga, arriscou: – Foi um péssimo término, até sem sentido nenhum, cada um pro seu lado, mas você aqui de um certo jeito tão encantada, começo a duvidar do mundo. Quase em transe, Bárbara apenas sorriu, balançou a cabeça e disse: – Ah, tanta coisa mudou mais fora do que dentro de mim, que não sei se comprei essa plantinha pelo ajuste de salário ou se porque me sinto mais delicada a cada dia que passo naquela casa mais sozinha do que acompanhada. Falar nisso, você deveria ir lá mais vezes, sinto falta das nossas conversas sóbrias, dos filmes e das discussões fervorosas por desavenças tão banais. Mas, por ora, aproveitando essa sexta, já marquei com o pessoal lá no barzinho, voltar pra casa só com essas compras é que não volto, (tenho conseguido me virar bem sem ele. Tenho até estado bem, já não encho os outros com meus lamentos, há tempos, apesar de ainda me pegar chorando sozinha. Talvez nem me escutem mais, ou talvez eu que não diga mais nada com nada mesmo. Os amores continuam passando por aqui, mas agora como fantasmas vigilantes à espera da minha, enfim, desistência e rendição. A verdade é que não morro mais por amor, que fiquem a me rondar e fazer companhia, mas não morro. Pois morrer é virar do avesso, é a certeza de nunca mais poder tocá-lo com as mãos da primeira vez, aquelas que se entrelaçaram, me deixando segura ao atravessar a rua, me querendo pulsante do outro lado, por quanto tempo, por onde fosse e como desse. Vivendo por amor, cercada pelo que poderia ser, atormentada por fantasmas de possibilidades e pelo amor que um dia foi dele, tenho conseguido até me virar bem. Já não me incomoda ele ter me virado as costas), não hoje. A amiga, reconhecendo Bárbara, deu uma gargalhada: – Agora sim, Bárbara, já estava ficando preocupada.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Escalada

E não estamos todos no fundo de um mesmo, imenso e profundo poço onde alguns decidem cavar mais para encontrar outras saídas?

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Meu tempo

Eu teria te beijado se eu soubesse
Teria te dito que você era mais importante que aquele cinema
Teria te chamado pra sair como se você não tivesse sido a última opção
Teria te dito naquela hora que eu queria ter dito sim,
se eu não soubesse que seria tarde, breve, único.
Não sabia que só te teria ali, naquele momento
como sendo tudo o que conjugaria todos os meus tempos.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Aquariana


Sei o que te irrita
o que te faz gritar, xingar
sair do salto e do sério
Esse teu amor
sem querer
sem quê nem pra quê
Sei do teu jeito de negar
o que quer ser rasgado
Do teu beijo breve
a despedir-me
desesperado
E desse teu olhar
que não me diz pra ficar
torcendo pra que eu não vá embora.

sábado, 19 de outubro de 2013

Na calada da noite

Estou aqui esperando por você, como você não me pediu nem deu qualquer sinal de que era isso o que queria. Espero porque sei que, apesar de tudo, e de nada que você tem me dado ultimamente, era isso o que queria quando saiu pela porta depois de um breve beijo às pressas para o aeroporto. Não chamaria aquilo de despedida. Então, se você de alguma forma soubesse que não voltaria, não teria ido embora daquele jeito, não é? Simplesmente falamos sobre o que poderia acontecer e o que não queríamos que acontecesse, não nos prendemos, nos deixamos ir sem usar nenhuma desculpa fajuta. Hoje faz exatamente seis meses desde que nos falamos pela última vez, a única coisa que me lembro é de você ter dito o dia em que voltaria e que me encontraria naquele bar, num tom totalmente descompromissado. De certa forma, não levei nenhuma palavra em consideração, mas o fato de ter me lembrado disso dia após dia me fez estar aqui esta noite, sentada, estúpida e crente de que você irá aparecer, ou lembrar-se dessa promessa absurda. Você nunca fez promessas, e o mais perto disso que fazia, nunca cumpria. Às vezes me pergunto o que fiz durante todo esse tempo e o que faço aqui agora, sendo idiota o suficiente pra continuar acreditando na única pessoa que nunca fez questão de me falar a verdade. A verdade é que você também não fazia questão de mentir e essas quase promessas, eu mesma que inventava numa tentativa de me manter acreditando naquilo que você também não chamava de amor, não chamava de nada, aliás. Mas vivíamos, quase sempre, isso que nenhum de nós chamava de amor, e sobrevivemos anos e anos nisso que todo o resto dizia não ser amor, enquanto todo o resto amava e desavama quando bem lhe fosse conveniente, relacionamentos superfaturados e cheios de dívidas que nunca seriam pagas. Pois escolhemos ser amantes a definir o amor. Quando você desligou o telefone, seis meses se passaram, e ainda me sinto na sala pensando no quão burra eu seria se estivesse esta noite aqui, no mesmo bar e na mesma mesa. Estúpida, idiota e burra, pedindo outra dose de tequila, esperando que você não demore tanto a chegar, pois nunca foi de chegar na hora marcada, mas sempre na hora certa, torcendo para que venha mais uma vez, mesmo tarde da madrugada, para me levar para casa quando eu estiver bêbada, amaldiçoando os quatro cantos do mundo por mais uma vez ter acreditado no que eu queria acreditar: em tudo o que o seu silêncio sempre me disse.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Cardápio

Foi quando cheguei em casa mais cedo, logo depois do trabalho, nada de bar, ou pizzaria, ou padaria, ou restaurante, ou café, nada de livraria, nem biblioteca, nem cinema, nem casa de amigo. Vim direto pra casa, pois já não aguentava mais estar pensando tanto em você naquele dia, depois de tanto tempo, naquele dia em que você voltou ao meu pensamento simplesmente porque alguém que não era você entrou no mesmo ônibus, alguém que não era você também sentou na última cadeira, alguém que não era você desceu na mesma parada. Pedi sushi. Assisti a mais uns capítulos do seriado. Tomei café. Assisti a um filme. Fiz calabresa. Li um conto. Comi o último pedaço de torta. Liguei a TV. Pedi uma pizza. Coloquei Bethânia. Abri a primeira cerveja. Como alguém que não era você deve ter feito assim que chegou em casa com alguém que não era eu.

domingo, 15 de setembro de 2013

Pra viver como se fosse fins

Não quero ter a certeza da última vez
quero já ter vivido
e viver pensando nas possibilidades
daquilo que teria sido
se eu tivesse realmente vivido.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Amórbido

Tenho conseguido me virar bem sem você. Tenho até estado bem, já não encho os outros com meus lamentos, há tempos, apesar de ainda me pegar chorando sozinha. Talvez nem me escutem mais, ou talvez eu que não diga mais nada com nada mesmo. Os amores continuam passando por aqui, mas agora como fantasmas vigilantes à espera da minha, enfim, desistência e rendição. A verdade é que não morro mais por amor, que fiquem a me rondar e fazer companhia, mas não morro. Pois morrer é virar do avesso, é a certeza de nunca mais poder te tocar com as mãos da primeira vez, aquelas que se entrelaçaram, me deixando segura ao atravessar a rua, me querendo pulsante do outro lado, por quanto tempo, por onde fosse, e como desse. Vivendo por amor, cercada pelo que poderia ser, atormentada por fantasmas de possibilidades e pelo amor que um dia foi seu, tenho conseguido até me virar bem. Já não me incomoda você ter me virado as costas.

domingo, 1 de setembro de 2013

A idade do concreto

Não é a primeira vez que tentam invadir o Cocó com o argumento de trazer algum tipo de desenvolvimento para a cidade. Fico a pensar se desenvolver é isso: de árvore em árvore, enfim, se chegar a nada, além de chão seco, paredes firmes, tinta fresca e metais reluzentes. “Tudo isso por apenas algumas árvores. Tudo isso por causa de um viaduto. Não vejo esse escarcéu todo por outras causas. Estão sendo contra o desenvolvimento da cidade. Querem voltar à idade da pedra. Vagabundos! Vão trabalhar!” Eis algumas máximas vindas do lado de fora, de pensamentos cristalizados num sistema que nos molda anos a fio. Seria até de se compreender, não fosse a tamanha resistência a perceber outras realidades, outras formas de se construir uma sociedade. Muitas vezes nos prendemos às ideias apenas para comprovar nossa personalidade, moral, talvez “ética”, e nos agarramos a elas mais que tudo, nos fechando para os outros, para o espaço e direito dos outros. Fixe: esses outros não se resumem a nós, seres humanos, mas a tudo, a todos que compõem nossos solos, ares, águas e céus. Ao atravessar a entrada, destroçada pelos mandantes do desenvolvimento, mas aos poucos sendo colorida por instituições, entidades, indivíduos que percebem o mesmo que aqueles que ali ocupam e estão dispostos a defender o parque com unhas e dentes, e até com estômago, logo percebi: não são apenas árvores, não é só um viaduto, não são “vagabundos”. É uma causa, é um sentimento que não suporta mais a falta de sentimento reproduzida desde os tempos onde tempo é dinheiro. É um ideal que precisa cada vez mais ser reforçado, não apenas por sonho, utopia, mas por necessidade. Mudar as formas de se construir nossos espaços e nossas vidas é necessário. É preciso reconhecer-se enquanto ser vivo, enquanto parte de algo maior e, principalmente, enquanto único ser pensante responsável por esse algo e por tudo o que o constitui, mas que tem ido bastante contrário a isso. O incrível disso tudo é que algo tão simples e óbvio não consegue ultrapassar as barreiras sequer da visão de muitos, talvez por estarem acostumados a lidar com complexos sistemas mecânicos, sempre em busca de avançar, evoluir, progredir, desenvolver, como se quisessem preencher as falhas que ecoam entre os abismos cavados ao redor de cada um por anos e anos. Os poucos que tentam redefinir esses tons são tidos como loucos, transgressores, subversivos que vão de encontro às melhorias de nossa cidade. Melhorias?!... Talvez esteja na hora de “avançar, evoluir, progredir e desenvolver” de dentro pra fora, pois todos temos barreiras, mas podemos delas reconstruir pontes, praças, parques, e dai ver que a melhoria mais importante é ser gente de novo. Não é voltar a idade da pedra, é sair da idade do concreto.