domingo, 1 de março de 2015

Solo


Adiei meu amor por mais um dia,
coloquei tudo de lado,
busquei conforto num canto do quarto
e dormi no colo do travesseiro.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Sem horas

Somente os minutos batiam naquela sala cheia de um cigarro só, dois cinzeiros e três cervejas que todos dividiam. Acho que cinco dos nossos; um dormia, então qualquer conta seria inestimável. Todos conectados, enroscados nas linhas invisíveis de uma rede que não prendia ninguém. Tudo rodava com o disco, o mesmo vinil porque insistíamos no passado, nenhum tinha se resolvido ainda. Ouvíamos cada música como se fosse distante, duvidando da próxima, crendo que tudo o que viesse seria sempre inapropriado, nos tirando daquele passado e nos realocando exatamente nele. Olhando pra tudo no mesmo lugar, percebi que ela era passado e apenas eu insistia no tempo. Afora era tudo presente. Na primeira vez que o disco arranhou e quis falhar, acordamos em dar uma volta pela cidade, era madrugada, mas ainda havia o barulho dos carros, o feriado nem sequer tinha começado e os paredões vibravam notas até então desconhecidas. Na segunda vez que paramos, ela me trouxe uma bebida forte e se apresentou. O lugar estava cheio e tudo girava em torno do palco, da voz e do violão, e de mim. No terceiro drinque, o futuro já anunciava uma ressaca daquelas e o esquecimento de tudo e de todas elas.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Novo sol

Hoje o sol tava lua, lua
antes de partir
me inspirei nele
e voltei tua, tua
nunca mais longe de ti.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Vasos vazios

Cheguei em casa e dei por falta de algo em cima da mesinha no canto da sala, um vaso com uma flor somente havia sido levado. No dia seguinte, senti a ausência de um livro na cômoda ao lado da cama, era um livro de contos que havia ganhado e nem começado a ler ainda, sequer lembrava o nome do autor ou autora. Hoje, cheguei mais cedo, também senti falta de alguma coisa, mas de imediato não soube o que era. Vim pelo caminho inteiro sentindo falta dessa coisa, a lembrar da flor e do livro, do vaso, do autor ou da autora, da mesinha que eu precisava limpar, da cômoda que precisava ser trocada de lugar. Dos livros que eu [me] prometera ler e do jardim que fiquei de brotar no quintal. E fui percebendo nuances em vasos vazios que via por detrás das janelas fechadas das casas escondidas atrás dos condomínios. Cheguei em casa e senti faltas, ausências e carências, e me dei conta de que a solidão é o furto de si, é aquilo que nos foi tirado sem saber onde nem quando nem por quê.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Quando Deus não quis

Um dia, demorou tal dia, mas chegou tão repentino quanto um trovão após o anúncio do relâmpago: Deus não quis. E quando Deus não quis que o time ganhasse, não quis dar o carro novo, não quis baixar o preço da gasolina, não quis apagar o fogo, não quis cessar a guerra, não quis curar os doentes, não quis abençoar o filho nem perdoar o pai, tampouco quis ir à igreja, crucificaram-no em pleno Natal, e quando Deus não quis ressuscitar no terceiro dia, deram conta de si mesmos e entenderam o que era viver em paz.

sábado, 15 de novembro de 2014

domingo, 9 de novembro de 2014

O que é sem ser sentido

 Gra.

De início, eu não sabia o que falar, aí decidi escrever e ler, sem muito drama mesmo. Só que eu também não consegui. Voltei pra frente da câmera com a cara e a coragem e comecei a gaguejar algo que parecia valer dizer, mas não valia, porque não passava de barulho e barulho nem sempre quer dizer alguma coisa. Aliás, na maioria das vezes, não quer dizer nada mesmo, só barulho, como ocupar um espaço que não lhe cabe. Então voltei pra frente do papel, segurei firme o lápis e comecei a rabiscar algo que parecia valer escrever, e então valeu. Saiu algo do tipo: um dia, só por um dia, a gente vai perceber que tudo vale a pena e então vai deixar fluir como deve fluir e passar a ser o que deve ser, e fazer sentido sem precisar fazer, mais ou menos como a gente, que já se vale assim todos os dias. Mas eu não entendi nada.

domingo, 26 de outubro de 2014

Paixonite crônica


Primeiro você tirou o chapéu, desprendeu-se, os cabelos esvoaçaram quando o ventilador te achou e eu me apaixonei pela primeira vez. Depois tirou os brincos pesados, deu de ombros e tirou os sapatos, sentou-se na cama e eu me apaixonei pela segunda vez. Então você foi ao banheiro e removeu toda a maquiagem, voltou para o quarto, trouxe-me água, ofereceu-se para me preparar um jantar e eu me apaixonei pela terceira vez. Enquanto tudo fervia, você veio e me abraçou sem pedir licença, reservou um livro, leu “Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende?”, parou abruptamente, disse que continuaria na manhã seguinte e eu me apaixonei pela quarta vez. Tirou a blusa e já não estava de sutiã, quinta vez. Pela sexta vez me apaixonei quando simplesmente me pegou pela cintura e me beijou, novamente sem pedir licença alguma. Sem ar, tive a impressão de me apaixonar pela sétima vez. Completamente nus, à meia luz, vi seu rosto límpido e um sorriso que dizia “fica, pois te sinto se apaixonando pela oitava vez”. Ao sentir o cheiro estranho que vinha da cozinha, hesitei e me diverti ao mesmo tempo, nona vez. E foi quando você disse “deixa tudo pra lá” que eu me apaixonei pela décima vez e nos queimamos sob o frio que fazia naquela noite abaixo de zero.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Bem-te-quis


eu, que só quebrava galhos, fui, enfim, encontrar repouso sob o bater das tuas asas de retalhos.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Da guerra

Amada,

esta carta pretende ser breve.

A primeira carta. Comecei a escrevê-la no instante exato em que senti teu cheiro. Meia-noite, com segundos vacilantes entre uma quarta e quinta-feira de céu nublado. Fiquei tentando buscar na memória que cheiro era esse, se do cabelo, da pele, do suor. E nada. Nada. Foi quando me dei conta que era teu cheiro e só. Cheiro a sós. Essa coisa toda de corpo n’alma, que talvez viesse de dentro de mim, impregnado desde o primeiro encontro (ou seria o mais recente?), fixo como as memórias do nosso último desencontro.

Quando estamos em pauta, não dá pra pensar num passado nu de arrependimentos. E eu estou vestida como quem vai pra guerra, armada até os dentes contra um futuro que possa reincidir minhas falhas. Aliás, não somente eu, sinto que você também se camufla de todas as formas, mais duramente, contra passado, presente e futuro. Uma vez me disseram que isso nunca daria certo, pois de certo você transparece mais indiferença do que amor. Só que não entenderam que nesse espelho o reflexo chega a ser dispensável, que quem te vê sou eu e nos bastamos da alma pra dentro. Duas almas em mosaico, remontadas de estilhaços de ferro, soldadas.

Minha querida, não entendo mais o sentido dos sentidos. Peço que volte logo.

Sinto saudade do tempo em que somente o cheiro era concreto.

Z.