Estávamos, então, nesse dia a procurar por nós duas, até que nos achamos no fim da tarde. - Cinema? - Fomos. Filme até legal, mas sem muito aquele agora que esperávamos, era pra outro tempo, não nos importava qual, o que importava era sabê-lo e mudar o caminho, voltar os ponteiros e procurar o agora do agora certo. Rodamos um pouco a cidade nessa busca, relógio parado, tempo passando. - Entra aqui! - Entrei. Meio pequeno, meio aconchegante, meio diferente do que tínhamos imaginado. - Um vinho pra esquentar. - E sorriu, meio ingênua, meio insinuante, como só ela sorria. Isso sempre me irritava. Não porque eu sentia aquele sorriso esnobe dizendo pra mim que ela estava perto e longe ao mesmo tempo, pois não nos tocávamos tanto, era uma relação meio egocêntrica, mas porque a vontade que eu tinha era de pegá-la em meus braços e tornarmos ser, era a contradição que aquele sorriso me provocava. Afinal, não tinha motivos pra mudar tudo se tudo era pra estar como estava. Mover qualquer ponto era complicar a balança, desequilibrar, perder o controle. Ora veja, duas descontroladas saindo do meio pro inteiro, esse inteiro em falta que é o amor. Não, não podia acontecer. A vontade que tive foi de sair dali, daquelas quatro paredes, transformar o agora em antes ou depois, deixar o vinho aberto pela metade, deixar tudo pela metade, como sempre. Mas não o fiz. - Teu sorriso me incomoda como nenhum outro jamais me incomodou, ele é cínico demais, incoerente demais, absurdo demais, lindo demais. - Foi então que percebi, eu já estava nas reticências. Não contive o impulso quando abracei forte aquela mulher junto a uma das paredes, como nunca, acariciei, beijei, amei. Redesenhei cada traço dela com meus dedos, os cabelos, os olhos, a boca, o pescoço, os seios, o abdômen, as coxas, os pés, o sexo, a respiração, os suspiros, a transpiração, o êxtase, o suor, o sono e os sonhos. Estávamos por inteiro numa cama, num corpo e numa alma só. Não era mais ela, nem era mais eu, éramos nós. Éramos um agora de ontem e de amanhã, até a madrugada chegar.
Adormecida num quarto desconhecido, acordou-se meio atordoada, fora do tempo, à procura de mim ou dele, atrasada para alguma coisa no meio da noite, preocupada com qualquer coisa. Havíamos perdido o nosso agora e precisávamos encontrá-lo antes de sair dali ou correr o risco de nunca mais saber de nada sobre a gente. Talvez fosse isso. Pude acalmá-la num silêncio, meio calada, quase soluçando. O agora estava voltando na constância dos gestos e das falas. - Vamos embora, acordo cedo amanhã. - E voltamos confundindo o tempo, apesar de sabermos que era noite, parecia quase amanhecer, mas também parecia quase anoitecer. No rádio, uma música pra inibir a ausência que aumentava cada vez mais que nos aproximávamos da casa dela, deles. Eu estava meio com sono e ela meio cansada. Parei quase em frente ao portão e ela se foi deixando um abraço e um beijo no canto da boca. Fixei por alguns instantes aquele desfile, aquele perfume e aquela mulher, depois descartei, mais uma vez. Abri os vidros e também fui embora. Ao chegar em casa, ainda que pisando manso, o acordei, mas meio sonolento e acostumado com minhas noites adentro de trabalho, voltou a dormir. - Boa noite, meu bem. E dormimos, abraçados, como sempre.
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