sexta-feira, 7 de julho de 2023

O eterno retorno

        Ao entrar em conflito comigo mesma por simplesmente perceber que estava me encantando novamente por alguém, percebi o quanto ainda tinha de voltar os poucos passos que havia dado e avaliar o universo de intemperanças que ainda me rodeava, pois insistir nesse caminho seria vil com mais pessoas do que há de se imaginar. Sair de um isolamento imaginário embebedado em mal-estar para cumprir metas sociais que colocam em maus lençóis quem de algum modo vive em desconexão com esses encargos é arriscar entrar em isolamentos coletivos. Talvez o tempo certo de viver seja apenas uma dimensão em que haja, de fato, vida a ser vivida, em que se é sentido o renascimento do espírito, quando a alma não se suporta mais no corpo. Não é matéria, não é medida de relógio, não é linear nem constante. Não se esmaga o encanto com desencantos por si mesma; se toma por inspiração e expiração: conflitos não se resolvem com pressa nem com falta de delicadeza. É espera. E eu espero saber sempre o que não quero pra mim: me perder por não me encontrar nos meus próprios sentimentalismos.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Semântico

Vez por outra, na estrada que passa ali,
O barulho dos carros mais parece mar
Como o meu sentimento, que era tão livre
E não conseguiu te libertar.

sábado, 18 de março de 2023

A borda

        Lá dentre os anos da minha infância beirando uma juventude ainda muito branda, na aula de natação, onde eu acabara de entrar pra turma "grande", da piscina semiolímpica, tenho essa recordação dos quinze minutinhos depois das aulas que podíamos aproveitar o tempo pro que desse e viesse. Os que tinham turma, iam de turma, entre pulos, mergulhos tortos e acrobacias. Os que tinham pressa, chuveiro e toalha. Havia também os que tinham resistência e continuavam as sequências de nados e desafios inventados. Eu, ainda muito nova e pequena em comparação aos outros, não fazia muita coisa, além de brincadeiras aleatórias como cambalhotas debaixo d'água pra ver até onde a respiração, ou falta dela, aguentava.

        Ainda bem no início das aulas na piscina grande, ainda espantada com o tamanho dela e dos outros alunos, usei esse tempo livre pra contornar a piscina segurando numa borda interna que percorria por toda a sua extensão. A parte mais rasa me cobria por inteiro por alguns palmos ainda. E a mais funda? Era essa a grande curiosidade. Bom, já havia escurecido aquela altura quando fui chegando no ponto onde não dava mais pra diferenciar as divisões entre os ladrilhos e me soltei, soltando também o ar pra que a descida fosse certa e eu chegasse lá. Eu via a superfície se distanciando, mas mesmo assim não olhava pra baixo. Era como uma queda invertida, indo no sentido certo. Lembro-me de pensar: e agora? Não havia ninguém por perto e eu continuava descendo. E antes de chegar a lugar nenhum, já sem fôlego e sentindo muita pressão nos ouvidos, resolvi nadar de volta, de um nado que ainda nem era tão bom assim. Voltando à superfície e retomando o ar, dei-me conta de que poderia ter morrido e talvez não tão cedo fosse encontrada, ou caso socorrida, fosse tarde demais.

        A sensação imediata, no início, foi engasgante. Depois, vieram umas vozinhas de consciência e repreensão por ter feito aquilo, por não ter ido com ninguém ou sequer falado nada nem antes nem depois. Teriam sido recordações bem ruins se dias depois e por tantas vezes eu não tivesse feito de novo e de novo até conseguir. Em todos os tempos livres, mesmo sem fôlego, e sempre com aquela pressão no ouvido, simplesmente tocar o fundo mais fundo daquela piscina sem quase nunca precisar olhar pra baixo e ver o quanto ainda faltava de chão foi um dos mais singulares sentimentos que tive. Às vezes, agora perto dos meus 40, me pego angustiando o corpo, que segue inerte depois que tomamos conta de que manter a respiração contínua é bem necessário nessa vida, e ansiando por uma piscina bem funda. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Lá foi a primeira

        Existiu um tempo de alegrias imensas, mas também de choros angustiantes. Era tempo de vida. Deixei lá, bem guardado, junto comigo; eu lá. Aqui só estou e tenho estado por tempo demais. Aqui, só dó. Lá estão músicas, livros, risos, gírias, roupas, chinelos, filmes, agendas telefônicas e diários. Existia um tempo de mim e dos outros, delas, deles; de nós. Dos segredos, dos costumes, das noites, das manhãs. Das tardes que se confundiam com tudo isso, cortando o céu e as mentes. Das filosofias e dos cinismos. Dos vinhos e das cervejas. Era um tempo de olhares e queixas, mas sem deixas. Ninguém precisava conjugar nada lá onde sou. Lá onde sou, todos somos, e há alegria imersa e choro profundo. E, vez em quando, posso ouvir esse tempo, mesmo solo.

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Subserviência

Há quem se crie para servir
Há quem se instrua para se servir
Há quem se negligencie para ser servido.
E eu, que nunca coube nos extremos, continuo aprendendo.

domingo, 29 de agosto de 2021

"Eu me sei"

Já não me interessa
me destruir para existir
me culpar pelas solidões que grudaram em meus ombros e que me fizeram ter essa postura de quem já sentiu mais do que devia já não me interessa adornar a dor preparar um altar para louvar os meus traumas prefiro não consagrar todas as vezes que me partiram ao meio prefiro soprar nos meus ouvidos que embora não saiba bem o caminho para voltar a ser inteira eu estou retornando a mim mesma já não me interessa ficar ao lado de quem esquece que eu estive lá que quando a fé tombou eu estive lá eu não posso conviver com quem me obriga a esfregar as mãos com o óbvio todas as manhãs já não me interessa explicar que quem tem caminhos abertos não diz isso o tempo todo porque já sabe contemplar o silêncio da certeza de ser guiada eu sou carne banhada de sagrado porque mereço já não me interessa desviar de espelhos provar vivências admirar abismos jogar com a minha cabeça pra ver até onde aguento meu orgulho não é contabilizar as cicatrizes sigo lutando para mantê-las fechadas se for entrar aqui venha de pés descalços preciso sentir a energia pra ver se confio meu feitiço é meu sentido
já não me interessa
ficar rouca tentando explicar qualquer coisa eu me sei, eu me sei, eu me sei agora eu me ocupo adentrando minha coragem resgatando meus poderes deixando minhas asas respirarem.

Texto de Rayane Leão
@ondejazzmeucoração

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Era pra queimar depois de escrever

Chegam os finais de semana e eu sempre me sinto sozinha. Sozinha, mas não solitária. Estar sozinha, somente comigo mesma, eu, meus pensamentos e assombrações. E por falar nelas, é preciso me livrar desses novos passados que seguem me atormentando noite após noite e que hoje me vêm muito mais em forma de reclusão.

Estão lá, cada palavra, cada tentativa de me rebaixar, de me enlouquecer diante do outro, de me diminuir para, enfim, me dominar, cada pancada que eu segurei com a frieza que, por graças, conseguia manter acesa e pra me defender: a única armadura contra o seu ódio por tudo e por todos: ser vazio e vazia. Eu não conseguia mais chorar de tanta tristeza, nem sorrir com os olhos; já não dormia à noite, já não queria viver meus dias. Só seguia o fluxo dos dias que, em alguns momentos, eu conseguia ter sob meu controle, mesmo com você tentando inundar tudo e me afogar na sua cólera condensada em veneno e mentiras. Não, eu não me mataria nem recairia num poço que tem lá até dedicatórias, como era de sua vontade sórdida.

Eu não tinha medo de você, tinha medo de mim, de tudo o que se passava pela minha cabeça em todas as vezes que você começava a rosnar e cuspir o mais intragável fel misturado a fumaça do cigarro. Até minhas reações estavam em jogo, na tentativa de serem controladas por alguém tão amador. E você queria a todo custo se cobrir com o manto do vitimismo e me apontar como o ser que você sempre tentou pintar por aí, à tua imagem e semelhança; teu espelho era inverso. Aquele olhar vazio e cheio de ódio me tirava qualquer paz de pensamento, a me prender numa repetição a marteladas: como poderia existir pessoa tão cheia de abismos dentro de si?

A ilusão de achar que eu ainda decidia sobre minha vida me fez protelar e acreditar que, um dia, tudo passaria e se ajeitaria do jeito que deveria ser. O problema é que o que deveria ser, de fato, era. A ficha não caia. Mas o meu pedido de socorro foi tão imerso em mim mesma, que de uma faísca, veio junto tudo o que havia sido enterrado e abafado durante esses anos. E sair da escuridão me fez reenxergar a vida e tudo o que ela sempre me prometera: não era mesmo ficar num porão imundo à mercê do que eu precisava crer pra não cair em declínio total, sem mais voltas, sem outras chances. Eu tinha forças ainda, e eram bem maiores do que ontem, seriam sempre maiores amanhã. Forças internas e externas. As minhas. As dos meus.

Então você foi arrancada como um band-aid que sai de uma ferida curada, sem dores. Eu não estava nas minhas mãos, mas, agora, também não estou nas suas. E isso me abre qualquer possibilidade de vida, nem que seja para escolher entre ficar simplesmente sozinha, aos finais de semana ou em qualquer outro dia. O vazio dessa casa nunca me preencheu de tanta paz. E hoje eu entendo a diferença entre solitude e solidão.

E pensar que, um dia, eu deixei que você questionasse até a minha escrita.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Variações de uma mente sã

adormecer para o mundo
explorar todo o mundo
esconder-se do mundo
doar-se pelo mundo
ganhar o mundo
explodir no mundo
perecer com o mundo

E no oitavo dia, descansar.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Bulinas

Perdendo a dor, a angústia, o desespero
A negação e a agonia
O pretexto
Aquele ser, o único que te satisfazia
A essência, o nada
A paciência da apatia
Quando somos a tal lata
A convivência do querer
Da sombra da falta de empatia...
É que vem aquilo que nada nos consulta
A certeza de que nada dói
O desespero que se nega
A mistura que se aceita
E comum se receita
Para além de tudo o que se insulta. 


quinta-feira, 10 de março de 2016

Mud'alma

Às vésperas de mais uma mudança, fico aqui pensando nessa facilidade que eu tô tendo de me desenraizar dos espaços; antes, eu achava que seria difícil colocar tudo numa caixa e vivenciar a vida entre quatro outras paredes, sem nem uma alma minha, agora, chego a nem tirar todas as coisas das caixas, chego a nem perceber as paredes, nem a pensar duas vezes antes de me deslocar mais uma vez. A qualquer momento, pode ser outro corpo noutro lar. Em menos de um ano, aprendi a me desapegar de tudo aquilo que estive agarrada desde sempre, por uma vida ou alguns minutos. - Essa casa nunca foi minha, o coração é que me faz moradia - e vai. Também achei que sentiria mais dó daquilo que pudesse ser perdido, mas  o que vai se perdendo, e muita coisa vai se perdendo, não se perde, não se sente. Quando a gente se muda, tudo na gente muda também, inclusive os apegos.