quinta-feira, 17 de abril de 2014

Crédito especial

Parei de te convidar não pra que você aparecesse de surpresa, não quero mesmo que venha, nem tarde nem nunca, pois já gastei todas as palavras pra que pelo menos passasse por aqui, todas as desculpas pra que chegasse cedo, desenhei todos os mapas possíveis pra que não se perdesse no meio do caminho, usei todos os cartões de crédito pra estocar o que bem agradasse, fiz até conta no mercadinho da esquina; vi meus pedidos se perderem entre o eco de outros pedidos deturpados, convites aleatórios, papéis picados e rabiscados a traçar outros caminhos, dívidas e mais dívidas a acumular em meu nome. Só eu paguei, em parcelas mínimas e juros máximos, aos poucos, fui, ano após ano, engolida pelos débitos da tua ausência. Saiba que não tinha, de forma alguma, a intenção de te riscar dos meus contatos, mas é que cedo ou tarde esquecia das minhas contas e de todos os outros convidados e ia atrás do que era mesmo da minha conta, acabava sempre no cheque especial. Nem meus dois empregos estavam dando conta de sustentar esse sentimento todo. Juros, taxas, multas, alguns poucos bônus apareciam pra me ludibriar, mas logo dava pra perceber que era tudo jogada de quem não sabe se vai ou se fica. Era sempre assim: eu empobrecia de amor enquanto você decidia se levava ou se estava só olhando. Olha, se parei com os convites, entenda, é porque nem de presente quero mais. Quitei todas as pendências, festa agora só se for à vista.

domingo, 30 de março de 2014

Luas cheias

As passadas largas na escada não disfarçavam a pressa daquelas pernas. Ela, ofegante. Ela, surpresa. Aquele pulso bateu tão firme na porta que ela se abriu sem qualquer receio, premeditando o conflito que aqueles corpos armariam naquele fim de tarde. Os cabelos castanhos amarrados, os óculos jogados na mesinha de canto, o suor ainda escorrendo pela testa franzida e a boca entreaberta aguardando o momento certo; a língua sedenta e inquieta passeava traiçoeira entre os dentes. Os cabelos bagunçados, os olhos confusos de um sonho distante e nenhuma curiosidade em persegui-lo e as mãos inseguras rondando o corpo tímido e nu; a boca em choque. A insatisfação e aquela curta distância iniciaram um ritual eufórico de corpos ansiosos e aparentemente virgens. Virgens de tanto desejo, como uma paixão inédita. As mãos cruzaram-se dando a impressão de uma deusa de um templo não tão distante, poligamia num par insaciável, as pernas entrelaçadas e o sangue uno. A respiração tensa, a falta de ar em busca do êxtase, da ausência total de qualquer vida comum. Exigiam a morte do corpo, a elevação, o topo da alma. Frenéticos corpos! Os dedos, demarcando espaço, invadindo territórios proibidos e delimitando aquelas áreas, percorriam sem qualquer escrúpulo a pele latejante dela, abusavam daquele terreno com total consentimento, sem qualquer rejeição. Os cabelos num só fio interligavam os gemidos imperceptíveis, um telefone sem fio ao pé do ouvido, um segredo, uma entrega. Os escudos pelo chão, as armas em mãos, uma guerra de um lado só, uma olimpíada entre lençóis e outros obstáculos. E o auge seguido, seguido, seguido por ânsia, dependência: uma noite na prisão. As luzes refletiam cada toque intenso, despertando o rei maior, anunciando um fim ou um recomeço. Mas, naquela manhã já alta, a despedida foi fria e casual, sem beijos nem abraços. Só a expectativa de um desejo agora contido, controlado, à espera de um anoitecer com a próxima lua cheia.

terça-feira, 25 de março de 2014

Carta ao amor que fica

Fixa,

finalmente. Estou indo embora dessa cidade. Já nem lembro há quanto tempo venho planejando essa despedida sem adeus, nem por quanto me vendi para ir no primeiro ônibus que me levasse o mais longe possível exatamente na hora marcada e certa. Meu tempo deixou de ser cronometrado no instante em que você disse "não". Finalmente. Prevejo todos os nossos planos do lado de lá, espelhados sem o teu reflexo, falar nisso, deixo meu espelhinho de cabeceira no mesmo cantinho, pode ficar. Do lado de lá, que nem sei ao certo onde fica, mas como há de ficar, não deixo endereço nem telefone, a garantir que você fique cá. E-mail você manda quando quiser, sem tempo de resposta, digo de antemão. Te visito sem hora marcada, me espere quando quiser, prometo. Mando cartões sem postais, para que te lembres apenas das minhas letras, outrora nunca lidas. Aliás, já guarda esta carta, como sendo a primeira, para que não te esqueças no momento presente em que desejares, se bem te conheço, em vão, ter dito "sim". Sim, estou indo embora de ti. Finalmente.

Até.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Arágua

Entre um e outro gole de cerveja 
naquele dia 
sentada à mesa 
Desnorteei um instante 
e proseei com um ser 
dos mares mais distantes 
Balbuciou qualquer coisa assim: 
- Cansei de ser fênix 
agora eu quero ser tartaruga! 

E foi-(ser).

de Natalice Garcia.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Término intrépido

O cigarro e o cinzeiro
O copo e a bebida
A mesa e o canto
O proibido e o desengano
A decisão e a despedida
Foram-se as duas
Às duas
Partidas.

segunda-feira, 10 de março de 2014

Calma, alma, lama

C A L M A, foi assim, em letras de forma e com um certo ar de separação. Você estava tão bêbada naquela madrugada que nem conseguia falar, mas mesmo assim percebeu o quanto eu estava atordoada com o seu silêncio, que não era só de embriaguez, mas também de dúvida. Te tirar daquele show talvez tenha sido a pior coisa que eu tenha feito, ainda tento me arrepender, mas você sabe, arrependimentos não são do meu feitio, acho que esqueceram de me dar uma consciência meio pesada. Só me interessava te tirar dali, do próximo gole de cerveja que, cambaleante, você ainda teimava em beber. O motivo não era certo nem errado. Erro, só o meu. Foi quando te sentei em frente ao mar e fui atrás, louca, atrás de água, com gás, pra incitar vômito mesmo, o que fosse pra te livrar um pouco do peso que eu mesma havia provocado. Mas não me importava. O peso, a bebida, a água, o show, o amigo que oferecia mais e mais, a menina que te cantava mais e mais, nada. Que vomitasse tudo, depois voltasse pra casa, pra cama. Comigo ou sem mim. Calma. Até hoje, sempre que me percebo insistente, ou desistente, penso naquelas letras mal escritas na areia, totalmente ébrias, totalmente débeis. Alma. Sempre me falta quando preciso ter calma em vez de me jogar nesse jogo tosco que é o nosso amor. Lama. Que veio com toda aquela chuva, mesmo sendo verão; até onde moramos o clima é contraditório. Todos os nossos amigos ainda estão doentes, não sei se você também, já faz uma semana que não nos falamos, nem sei mais da tua temperatura. Mas eu não, não adoeci dessa vez, só a cabeça que pesa um pouco. Voltei esta tarde ao mesmo lugar em que rabiscastes a praia, buscando algum alívio: uma água, sem gás, mas longe de ser mineral. Juntei um pouco de areia e tracejei linhas que nunca trariam a leveza de uma completa e trêmula mão bêbada como a sua. C al m a. Sabe, te espero, mas não me espere mais.

domingo, 9 de março de 2014

Jogando com o diabo

UM dia inteiro dormindo, apenas o intervalo de pegar o ônibus, voltar pra casa e cair na cama de novo. Não me alimentei, não alimentei meus animais, não alimentei minha alma. Só alimentei a solidão que me perseguiu a noite anterior inteira. Quase não acreditei quando vi que hoje é domingo. Um sábado inteiro banido do meu calendário. Mas é sempre assim quando a gente espera algo de uma sexta e acontece toda merda que não esperamos. Acontece de aparecer até o diabo pra brindar com você e brincar de quem consegue cometer mais pecados. Dessa vez eu ganhei. E não tinha ninguém mais pra brincar disso, todos pegaram o primeiro caminho que os levasse pra longe dali, sequer me avisaram que estavam indo embora. Fiquei. Não corri atrás porque acho que correr atrás de quem corre de você não faz sentido nenhum. Então fiquei. Com o diabo e todos os pecados a serem cometidos. No meio da noite, até o diabo foi embora no último ônibus. Fiquei. Não dava mais pra pedir que me esperassem aqueles que disseram "vem quando tudo estiver limpo", a lama já estava até o pescoço. Ninguém gosta de limpar a sujeira dos outros, a não ser que possa jogar tudo debaixo do tapete, dia seguinte, memória apagada, está tudo de boa, sigamos novamente. Eu não. Da próxima vez, fico, mas no meu sofá e com meus próprios demônios, e não sob os dentes do próximo diabo que me jogarem como oferenda.

sábado, 1 de março de 2014

Semifechado

Aos poucos pude perceber o que esteve diante de mim durante o tempo inteiro em que estivemos juntos, o mesmo que nos manteve distantes também. Eu não fazia parte daquilo. Em meio aos sorrisos, brindes, presentes, surpresas, brigas, sempre fui um estranho, um confortavelmente adequado estranho, tão adequado que nunca me senti à parte de tudo, nem ninguém mais ali. Só agora, alguns anos depois de termos nos deixado, que me percebo: uma espiral dentro de um círculo.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Primeira folha



Tudo começou a partir de uma interrogação. E de uma planta. Depois de muito tempo, Bárbara finalmente resolveu mudar os móveis de lugar. Como costumava quando criança, até fez um esboço antes de onde cada coisinha se encaixaria em seu espaço já não tão frequentado, agora sendo apenas lugar de repouso, ou de ressaca. Ao mover a mesinha de cabeceira, logo deu de cara com um caminho, uma longa estradinha de cupins, que dava direto ao guarda-roupa, onde, retirando de imediato as gavetas, havia uma comunidade inteira deles a corroer papéis velhos e sacolas, roupas e fotos antigas que ela guardava uma a uma como lembrança de algum momento que considerava especial em sua vida. O problema é que praticamente todos os momentos eram especiais, cada dia que passava, dentro ou fora de casa, lhe parecia uma memória a ser guardava em qualquer espaço vago que ainda sobrava em seu quarto. Lembranças que agora, dia após dia, estavam sendo devoradas pelos cupins. Algumas coisas, tomando mesmo o sentido mais abrangente de “coisa”, simplesmente não podem permanecer estáticas. Livros, fotografias, brinquedos, chaveiros, pessoas, sentimentos, deixando-os guardados em qualquer lugar, por mais seguro que seja, um dia correm o risco de serem tomados por pragas como essa, que pouco a pouco destruía cada memória de Bárbara. É preciso mudar os móveis de lugar, revirar as gavetas, tirar o mofo das roupas, em dias de chuva, principalmente. Muitas pessoas, assim como ela, acreditam que guardar as coisas num lugar seco basta para dá-las a eternidade que precisam. É uma pena que Bárbara não se lembrou dos cupins, quase perdeu a fotografia inteira de sua formatura. Essas pragas aparecem onde menos esperamos e, por vezes, veneno algum impede que voltem ao mesmo lugar. Bárbara perdeu duas gavetas inteiras, algumas roupas não perderam o tom, mas se guardaram cheias de pequenos buracos, já os papéis, esses não puderam evitar o lixo.
Alguns dias depois, e pulverizadas de dois ou três venenos indicados pela internet, os cupins pararam de se procriar aos arredores de seu quarto, salvo alguns poucos que partiram para o quarto vizinho, o que já não lhe cabia. Dali, decidiu também dar um jeito no banheiro, mais para jogar alguns utensílios fora, agora não tão úteis assim, como algumas escovas de dente ali deixadas, ou esquecidas. Bem num dos quatro cantos, sentiu falta de algo. Nunca havia lhe tomado tal sentimento, pois também há tempos não reparava naquele lugar. Não tendo conhecimento dessa falta, não soube o que fazer, simplesmente tomou banho e saiu, em cima da hora como quase sempre saia. A ideia era encontrar uma amiga num barzinho e partir para o shopping, o ano se iniciava e quase tudo estava em liquidação, não que fosse assim tão consumista, muito pelo contrário. Precisava de algumas coisas desde o ano anterior e esperou que as festas insanas de fim de ano passassem, pois tudo ficava mais pacífico e barato. O barzinho, porém, ficou para depois. Não aproveitou para comprar novos móveis, os seus ajeitaria ela mesma com um pouco de cola, prego e madeira. Passando pela floricultura, onde nunca antes sequer encarou por mais de cinco segundos, veio o estalo que precisava para aquele canto do banheiro. Sim, talvez alguma planta, não com flores, simplesmente planta, nem tão colorida, apenas as mais puras folhas verdes. Essa não encontrou ali, também não quis ir à outra floricultura, aproveitou a viagem e levou uma que estava também num canto não muito visível da lojinha. Nem sequer perguntou o nome. Decidira depois dos cupins não se apegar tanto a muitas coisas, além do momento em si e dos próximos que poderiam vir a partir deles. O que esperava depois daquela plantinha? Talvez mais vida num lugar tão estático, ou talvez logo folhas secas a negá-lo.
Ceiça estranhou a atitude da amiga: – Primeiro entra numa floricultura e agora compra uma planta! Me diz, o que te aconteceu de ontem pra hoje? –, e encarou até que viesse uma resposta, mas antes de qualquer balbucio da amiga, arriscou: – Foi um péssimo término, até sem sentido nenhum, cada um pro seu lado, mas você aqui de um certo jeito tão encantada, começo a duvidar do mundo. Quase em transe, Bárbara apenas sorriu, balançou a cabeça e disse: – Ah, tanta coisa mudou mais fora do que dentro de mim, que não sei se comprei essa plantinha pelo ajuste de salário ou se porque me sinto mais delicada a cada dia que passo naquela casa mais sozinha do que acompanhada. Falar nisso, você deveria ir lá mais vezes, sinto falta das nossas conversas sóbrias, dos filmes e das discussões fervorosas por desavenças tão banais. Mas, por ora, aproveitando essa sexta, já marquei com o pessoal lá no barzinho, voltar pra casa só com essas compras é que não volto, (tenho conseguido me virar bem sem ele. Tenho até estado bem, já não encho os outros com meus lamentos, há tempos, apesar de ainda me pegar chorando sozinha. Talvez nem me escutem mais, ou talvez eu que não diga mais nada com nada mesmo. Os amores continuam passando por aqui, mas agora como fantasmas vigilantes à espera da minha, enfim, desistência e rendição. A verdade é que não morro mais por amor, que fiquem a me rondar e fazer companhia, mas não morro. Pois morrer é virar do avesso, é a certeza de nunca mais poder tocá-lo com as mãos da primeira vez, aquelas que se entrelaçaram, me deixando segura ao atravessar a rua, me querendo pulsante do outro lado, por quanto tempo, por onde fosse e como desse. Vivendo por amor, cercada pelo que poderia ser, atormentada por fantasmas de possibilidades e pelo amor que um dia foi dele, tenho conseguido até me virar bem. Já não me incomoda ele ter me virado as costas), não hoje. A amiga, reconhecendo Bárbara, deu uma gargalhada: – Agora sim, Bárbara, já estava ficando preocupada.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Escalada

E não estamos todos no fundo de um mesmo, imenso e profundo poço onde alguns decidem cavar mais para encontrar outras saídas?