Aos poucos, fui me aproximando, feito gato faceiro, feito amor manso, inventando qualquer conversa sem graça (ô desgraça!), contornando aqueles traços com outras cores, provocando coincidências, ou simplesmente as trazendo à tona. Numa noite dessas, pude contê-la por mais de um sorriso numa brincadeira, passamos algum tempo juntos, pude tê-la por perto pelo espaço de dois segundos. Ela sorria tímida, compartilhamos alguns dons falhos, desenhos borrados, flores inventadas, surpreendeu-se com alguns segredos que eu contava, furados, e eu senti ali como se estivesse vivendo pela primeira vez um sentimento ingênuo de quem se encontra no ápice de um desabrochar para a vida, num amanhecer ou num entardecer, onde tudo é começo encantado, pois tudo nela me levava a isso, à inocência, ou ao cinismo. Ela era segredo, um segredo sem malícia ou talvez sonso, não importava, eu gostava daquilo.
Os dias passavam e nós pelos corredores, em alguns poucos encontros ou esbarrões. Ela, secreta, e eu um baú aberto, pronto para desvendar qualquer atração, queria mantê-la em mim. Algumas vezes me fazia palhaço, mágico, malabarista, outras vezes apenas um bêbado a chamar atenção, equilibrista. Queria estar rodeado por ela, por todo aquele cansaço, por todos aqueles segredos, imaginando o dia em que aos poucos eles transbordariam nossas noites através de uma fala tão mansa que me adormeceria também.
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